Há um silêncio novo nas terras antigas. Não é o silêncio da madrugada, quando o orvalho ainda brilha nas espigas e o canto do galo anuncia o dia. É um silêncio mais fundo – o da ausência humana, o da enxada encostada à parede, o da eira sem risos.
O
campo, outrora coração pulsante do país, tornou-se um corpo cansado. As searas
que antes ondulavam como mares de ouro são agora pastos rasos, onde o gado
rumina o que resta da abundância. A seara já não é para o pão das casas; é para
o alimento dos animais. E os homens que sabiam ler o céu e prever a chuva foram
substituídos por relatórios, subsídios e burocracias que não conhecem o cheiro
da terra.
A
integração europeia trouxe progresso, dizem. Mas o progresso, por vezes, é uma
palavra que não sabe o caminho da aldeia. Trouxe estradas largas, mas levou os
caminhos estreitos onde se cruzavam vizinhos. Trouxe normas e cotas, mas levou
o instinto e a liberdade de plantar o que o coração mandava. Trouxe dinheiro,
mas levou alma.
Hoje,
os silos erguidos como pirâmides modernas estão vazios, quais monumentos à
abundância perdida. O pão vem de fora, o leite vem de fora, tudo vem de fora. E
o país que se alimentava de si próprio tornou-se um país que se alimenta de
lembranças.
Ainda
assim, há quem resista. Há quem continue a acordar cedo, a abrir as cancelas, a
cuidar das vacas e das oliveiras como quem cuida de uma fé antiga. Esses são os
guardiões do que resta, não de uma
economia, mas de uma identidade. Porque o campo não é só produção: é pertença,
é memória, é raiz.
E
talvez um dia, quando o ruído das cidades se cansar de si próprio, alguém volte
a ouvir este silêncio e perceba que nele ainda vive o país verdadeiro, o que
não se mede em euros nem em estatísticas, mas em gestos, em cheiros, em
saudade.
José Coelho
