sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O declínio rural

Há um silêncio novo nas terras antigas. Não é o silêncio da madrugada, quando o orvalho ainda brilha nas espigas e o canto do galo anuncia o dia. É um silêncio mais fundo – o da ausência humana, o da enxada encostada à parede, o da eira sem risos.

O campo, outrora coração pulsante do país, tornou-se um corpo cansado. As searas que antes ondulavam como mares de ouro são agora pastos rasos, onde o gado rumina o que resta da abundância. A seara já não é para o pão das casas; é para o alimento dos animais. E os homens que sabiam ler o céu e prever a chuva foram substituídos por relatórios, subsídios e burocracias que não conhecem o cheiro da terra.

A integração europeia trouxe progresso, dizem. Mas o progresso, por vezes, é uma palavra que não sabe o caminho da aldeia. Trouxe estradas largas, mas levou os caminhos estreitos onde se cruzavam vizinhos. Trouxe normas e cotas, mas levou o instinto e a liberdade de plantar o que o coração mandava. Trouxe dinheiro, mas levou alma.

Hoje, os silos erguidos como pirâmides modernas estão vazios, quais monumentos à abundância perdida. O pão vem de fora, o leite vem de fora, tudo vem de fora. E o país que se alimentava de si próprio tornou-se um país que se alimenta de lembranças.

Ainda assim, há quem resista. Há quem continue a acordar cedo, a abrir as cancelas, a cuidar das vacas e das oliveiras como quem cuida de uma fé antiga. Esses são os guardiões do que resta,  não de uma economia, mas de uma identidade. Porque o campo não é só produção: é pertença, é memória, é raiz.

E talvez um dia, quando o ruído das cidades se cansar de si próprio, alguém volte a ouvir este silêncio e perceba que nele ainda vive o país verdadeiro, o que não se mede em euros nem em estatísticas, mas em gestos, em cheiros, em saudade.

José Coelho