sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Uma promoção que o respeito concede

Na minha terra, os velhos não são apenas velhos. São também ti – uma sílaba curta que carrega décadas de vida, de trabalho, de chão.
Ti Jaquim, ti Manel, ti Antónho, ti Zéi, ti Tónha, ti Chica, ti Catrina, ti Tomásia… Nomes que não apenas se dizem: são.
O “ti” não é título, nem cortesia, nem parentesco. É uma promoção que o respeito concede. Uma condecoração silenciosa atribuída a quem já faz parte da paisagem, como oliveiras centenárias que resistem ao tempo e às secas.
Os, e as ti, da minha terra, tinham mãos que sabiam tudo: o peso da enxada, o segredo da horta, o jeito da lenha, o ponto certo da sopa, o remendo que dura anos, o toque certo para acalmar uma criança.
E tinham uma autoridade que não precisava de explicação: bastava um olhar, um “ó rapaz”, um “ó menina”, um “não vás por aí”, e o mundo ficava mais direito.
Falavam pouco, mas diziam muito. Sabiam rezar pelos outros antes de rezar por si. Sabiam sofrer sem fazer barulho. Sabiam amar sem fazer alarde. E sabiam esperar pela chuva, pelo filho, pela carta, pela vida.
Quando um ti morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma maneira de estar no mundo. Perdia-se uma voz que sabia dizer “Deus te guarde” com verdade. Perdia-se uma presença que fazia falta, mesmo quando estava calada.
Quem nasce numa aldeia nunca mais a larga. Pode ir viver para a cidade, aprender outras maneiras, habituar-se a outras delicadezas, mas por dentro continua sempre a ser aldeia. Porque há terras que ficam para trás, e há terras que vão conosco para onde quer que vamos.
A Beirã andou comigo por onde quer que eu andei: na maneira de dizer bom dia, boa tarde ou boa noite a toda a gente conhecida e desconhecida; na fala com o meu sotaque raiano; no gosto pelas pessoas; nos usos e costumes.
Seguiu-me na forma como considero os velhos, não como passado, mas como raízes. Seguiu-me na minha escrita, no cheiro das giestas em flor, no ritmo dos longos dias de verão.
E quando alguém me chama “ti Zé”, eu sorrio. Porque sei que esse “ti” vem deles, dos homens que me ensinaram o peso da enxada e das mulheres que me ensinaram o peso da ternura. Vem das mãos que me pegaram, das vozes que me guiaram, das vidas que me antecederam.
E cá dentro, onde mora a verdade, a autenticidade, a raiz, continuo a ser o que sempre fui: um homem da Beirã – o mê Zéi da minha mãe... e de mim mesmo.
Texto e foto