Aproxima-se, a passos firmes e silenciosos, aquela estação do ano que sempre reconheço como minha: o outono. Talvez seja pela melancolia que lhe está entranhada, essa melancolia que não pesa mas acompanha e que em mim encontra terreno fértil. Ainda faltam duas ou três semanas para ele se instalar por completo, mas já o sinto a rondar a casa como um velho amigo que chega antes da hora.
Os dias encolhem, como se tivessem pressa de se recolher. E as folhas – as primeiras mensageiras da mudança – começam a ganhar tons dourados nos ramos dos choupos do ribeiro, dos ulmeiros, dos plátanos, das figueiras e de todas as árvores de folha caduca que vejo do alto do meu quintal, até onde o céu se debruça sobre a terra na linha do horizonte. E as parras da nossa latada queimadas pelo rigor de mais um verão inclemente, decidiram começar a abandonar os ramos antes de tempo, como quem desiste de lutar contra o calor.
Esta tarde, depois de regar as plantas – esse gesto que me liga à terra como uma oração – sentei-me na varanda do quintal para assistir ao momento em que o sol se despede dos cumes graníticos orlados de copas de sobro, carvalho e azinho, lá para os lados da Herdade dos Pombais. Amanhã, esses mesmos cumes serão os primeiros a recebê-lo, quando ele se erguer para acender o novo dia.
A nossa casa, desenhada pelo meu pai – fundador, arquiteto e poeta da pedra – foi orientada para nascente e poente. Uma fachada recebe o sol ao nascer; a outra entrega-o ao ocaso. Nada foi por acaso. Nunca era por acaso nos planos desses mestres antigos. As empenas ficaram viradas ao norte e ao sul, para suportarem, uma, a nortada fria e cortante do inverno, e a outra, as chuvas generosas que chegam do sul.
O pôr do sol, já o disse tantas vezes, é o meu instante de eleição.
Fico suspenso no encanto destas paisagens que me viram nascer e que reconheço como únicas, irrepetíveis, quase sagradas. Há algo de misterioso nos minutos que antecedem o ocaso: a natureza parece deter-se por completo. É sempre assim. Todos os dias. Uns breves instantes de imobilidade absoluta.
Sentada ao meu lado na varanda, a minha companheira notou o silêncio:
– Que sossego, Zé! Nem os pássaros se ouvem.
– É verdade – respondi. E acrescentei: – Até o cãozarrão ali em baixo que passa o dia e a noite a ladrar como se estivesse zangado com o mundo inteiro, se calou.
– Que estranho, não? – Volveu ela, antes de se entregar também ao silêncio.
A luz tomou então um brilho amarelado, baço, como se o sol estivesse a apagar-se devagar. Os calhaus e o montado ao longe pareciam iluminados por holofotes, como as muralhas de Marvão quando a noite as abraça. Depois, lentamente, a luz extinguiu-se. No instante seguinte, a barra cinzento-escura da noite avançou, envolvendo tudo o que minutos antes ainda brilhava.
Sinceramente, acho que é neste momento que Deus desce à terra. E por isso toda a natureza – toda a Sua criação – se prostra em silêncio.
Nesses instantes de harmonia absoluta, invade-me uma paz difícil de explicar. Uma tranquilidade íntima, tão doce, que fecho os olhos e agradeço: por ter nascido, por ainda estar vivo, por toda a vida que me foi dada.
Texto e foto
