segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O último artesão da aldeia

Durante muitos anos, a Beirã foi um pequeno mundo onde cada ofício tinha um rosto, um nome, uma história. Hoje, quando se fala do “último artesão”, não se fala apenas de um homem, fala-se de uma linhagem inteira que foi desaparecendo devagar, como a luz ao fim da tarde. Mas houve um que ficou até mais tarde: o barbeiro, senhor João Rabaça.
A barbearia dele era mais do que um lugar de cortes de cabelo. Era ponto de encontro, consultório, sala de conversas, tribunal de pequenas causas, jornal vivo da aldeia. O senhor João Rabaça tinha mãos firmes, seguras, mãos que sabiam pousar a tesoura com a delicadeza de quem segura uma confidência. E quando ele fechou a porta pela última vez, fechou-se também um capítulo da Beirã.
Mas antes dele houve tantos outros, cada um guardião de um saber que não volta.
Havia o sapateiro, senhor João Sarzedas, homem de poucas palavras e de muita paciência. A oficina dele cheirava a couro, a cola, a sola nova. O som do martelo era música de trabalho, e as botas que saíam das suas mãos duravam mais do que muitas vidas modernas. Ele não consertava apenas sapatos – consertava caminhos.
E havia o grande artesão no ofício da carpintaria senhor Francisco Olivença que partiu precocemente só Deus sabe as razões, autor de uma perfeição inigualável em obras públicas – como toda a panóplia de madeiramento desde o soalho aos bancos para os fiéis, e ao confessionário da nossa Igreja – que permanecem inteiros e funcionais até aos dias de hoje, muitas décadas depois.
Houve posteriormente ainda outro carpinteiro de Castelo de Vide cujo nome já me escapa, mas cuja presença não. E havia o seu filho, meu amigo de infância, o António Carpinteiro que cresceu entre tábuas, serras e pó de madeira. A carpintaria deles era uma catedral de madeira: portas, janelas, mesas, cruzes, brinquedos, tudo nascia ali, com a dignidade das coisas feitas para durar.
E três alfaiates, homens de agulha fina e olho atento: o senhor Manuel Barradas por cima da Sociedade Recreativa, o senhor Barradinhas nos baixos do Senhor Graça e ainda o senhor Baldeiras que tinha a alfaiataria na primeira casa lado esquerdo da Rua Vivas, unidos pelo mesmo talento. As suas mãos sabiam medir sem fita, cortar sem erro, coser sem falha. Os fatos que faziam não eram roupa, eram respeito. E quem vestia um fato deles sentia-se mais completo.
E havia também o meu pai, o ti António Coelho artesão da pedra, homem que falava com ela como quem fala com um velho amigo. A pedra obedecia-lhe. Ele sabia onde tocar, onde bater, onde esperar. Sabia que a pedra não se vence, convence-se. E as obras que deixou espalhadas pela freguesia são testemunho de uma força que não era só física: era moral.
E porque não mencionar também três artesãos autodidatas que foram pastores, camponeses, ceifeiros e cavadores de terra, mas nas suas horas vagas executavam verdadeiras obras de arte - carros de parelha com os respetivos muares, carroças, sóchas e sôchos, pássaros que moviam a cabeça e o rabo, bolotas entrançadas, garfos, facas e colheres, com pedaços de madeira ou de cortiça: o meu avô José Lourenço, o seu filho mais velho e meu tio Francisco Lourenço, e também o ti João Pereira que morava no Bairro da Misericórdia da Beirã, já todos na eternidade.
Todos esses homens e muitos outros mais, foram grandes e competentes artesãos. Todos foram últimos, cada um no seu tempo. E todos deixaram na aldeia uma marca que não se apagará nunca.
Hoje, quando se fala do “último artesão”, fala-se do senhor João Rabaça porque foi o último a fechar a porta. Mas a verdade é outra: o último artesão da aldeia será sempre aquele que ainda vive na memória de quem o viu trabalhar.