sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Um aroma que é também saudade


O inverno sempre trouxe consigo uma sensação única à nossa casa. O lume de lenha na lareira da sala, tem sido o coração que pulsa calor e nos conforta durante os meses frios. Esta lareira, instalada aquando da ampliação da casa – outrora cozinha dos meus pais com uma sua congénere alentejana – é mais do que uma fonte de aquecimento: é um elo de continuidade, de aconchego e de tradição.
Foi ali que o avô Faustino - pai do meu pai - encontrou o seu lugar preferido quando veio viver conosco, já com 80 anos. O lado direito da chaminé rapidamente se tornou território seu com o banquinho de madeira que parecia feito à medida da sua presença serena.
Do lado oposto mantinha-se o “canto do dono” onde o meu pai se sentava sempre, perpetuando um ritual antigo. Mas entre ambos havia espaço para toda a família; a chaminé era tão ampla que unia e aquecia todos, deixando apenas um recanto reservado à despensa.
Aquele espaço da casa era a nossa zona vip. A mãe cozinhava ali todas as refeições e era à volta do lume que nos reuníamos para comer, conversar e partilhar momentos de conforto e paz. Com o tempo cada um dos quatro irmãos construiu o seu próprio lar, levando consigo estes hábitos simples e preciosos. E assim, de geração em geração, se foi perpetuando o gosto pelo lume aceso.
Para mim não há aquecimento que se compare ao da lareira. Além de ecológico é insuperável na forma como acolhe quem chega e transforma a casa num refúgio de conforto e bem-estar. Ao entrarmos vindos do frio, é como cruzar um limiar mágico: o ambiente quentinho e acolhedor reanima qualquer corpo e espírito, por mais gelados que venham.
Os meus filhos seguem o mesmo caminho. O Pedro, mesmo vivendo num apartamento citadino, faz questão de acender diariamente a lareira aberta da sua sala, durante todo o inverno. O Manuel, por sua vez, utiliza uma lareira fechada e cuja tecnologia permite aquecer toda a casa, levando o calor até aos quartos do andar de cima.
Memorável foi o comentário de uma vizinha e amiga ao ver a fotografia que ilustra este texto da nossa chaminé a fumegar quando a partilhei nas redes sociais: “gosto do cheiro" - comentou imediatamente. Entendi que não se referia ao cheiro do fumo em si, mas ao reconfortante aroma do lume – uma essência que evoca memórias e sentimentos profundos.
Esse “cheiro” é, para mim, indissociável da infância, da aldeia viva de outrora, do convívio e da segurança de lares aquecidos. É o cheiro de lenha a crepitar, sinal de casas habitadas e de famílias unidas que se espalhava por toda a aldeia, tornando-se parte da identidade do lugar.
Hoje o aroma do lume é também saudade de um tempo que se esvai, de pessoas que já partiram, de vizinhos e amigos que me moldaram como sou. Mas, mais do que tudo, simboliza a minha família: os que já partiram e aqueles que ainda tenho comigo.
É amor transformado em calor que se eleva docemente pela chaminé para ser levado pelo vento como prece dirigida àqueles que já não posso abraçar, mas continuam presentes na memória e no coração.
Enquanto o fumo continuar a elevar-se pela nossa chaminé, haverá vida à volta dela, haverá amor. E acredito que um dia que ele deixe de sair, é porque, certamente, estaremos já todos novamente juntos em redor de algum outro etéreo lume, onde quer que seja.
Texto e foto