Há espaços que por mais distintos que pretendam ser, acabam por revelar que as desigualdades e idiossincrasias da sociedade portuguesa estão à flor da pele. Uma sala de espera de um conceituado hospital privado em Lisboa, onde se cruzam diferentes mundos, serviu de cenário para esta crónica tão caricata quanto revoltante.
O seu descontentamento não tardou a manifestar-se assim que chamada ao guichet, respeitando a ordem de chegada imposta pela máquina das senhas. Uma vez lá, não hesitou em destilar destempero sobre a funcionária, como se estivesse a dar ordens à sua empregada doméstica. Entre falas carregadas de pretensa educação e insultos disfarçados, soltou a frase: “sim, é que nós pagamos a pronto”.
Não satisfeita, continuou a sua indignação ao afirmar que era vergonhoso o hospital atender beneficiários da ADSE, sugerindo uma separação entre quem paga “a pronto” e quem recorre a sistemas de saúde do Estado. A sua postura, carregada de arrogância, não provocou reação nos presentes, mas não deixou de incomodar quem testemunhava aquele espetáculo triste.
Confesso que naquele momento senti vontade de esclarecer a senhora que, embora não sendo eu beneficiário da ADSE, também tinha pago a pronto todos os exames e que, tal como ela, teria de desembolsar o valor total da consulta de urologia, pois a minha entidade já não tem acordo com aquele serviço. Os direitos ali eram iguais para todos, gostasse ou não a senhora dona.
Quando parecia que o episódio estava a terminar, entra em cena outro personagem: desta vez um cavalheiro, igual em estatuto à diva, mas no masculino. Este, ignorando deliberadamente a máquina das senhas, caminha decidido a um dos guichets e, sem cerimónias, interrompe o atendimento de quem ali estava, bradando: “tenho de ser atendido já, porque venho à rasca”.
A funcionária, sempre cordial, sugere-lhe que tire uma senha prioritária na máquina – coisa que, obviamente, o senhor já sabia mas escolheu ignorar para tentar passar à frente. Com a senha prioritária na mão, é prontamente chamado, saltando a fila das pessoas que ali aguardavam há mais de uma hora. Para espanto de todos, após o atendimento, permaneceu na sala a conversar, demonstrando que a sua urgência era, afinal, bastante relativa.
Por norma ninguém reage, mas eu decidi não me calar. Aproximando-me do dito cujo, fitando-o nos olhos, afirmei com ironia: “É evidente a gravidade do seu problema de saúde e as mil razões para estar tão ‘à rasca’ que nem pôde esperar pela sua vez”. O fulano, com o mesmo ar superior, perguntou: “Mas quem é você?”. Respondi de pronto – Sou o José do Alentejo, com toda a certeza um homem muito mais bem formado e respeitador do que VOCÊ – acentuei deliberadamente, o modo rude como ele me tratou.
O gajo entendeu perfeitamente o recado e preferiu não dar troco. Fui chamado pela ordem da prévia marcação a pagar a consulta e marcar os próximos exames. Quando regressei à sala, já não o vi. Talvez, afinal, tivesse pressa em sair, ou talvez a minha intervenção o tenha feito repensar o seu comportamento, ainda que por instantes.
Na sala, uma idosa acompanhada pela filha continuava à espera de ser chamada para uma consulta marcada para as dez da manhã, já passava das onze e meia. Apesar das reclamações, a resposta do guichet era sempre a mesma: “A senhora tem de aguardar…”. O contraste não podia ser maior – enquanto uns berram e são imediatamente atendidos, outros, educados e pacientes, continuam a esperar.
Na minha aldeia, quando alguém diz que vem à rasca, recomendasse-lhe que vá cagar p’ra aliviar. Mas fica a questão: desde quando um piso de hospital exclusivamente destinado a consultas faz também serviço de urgência?
Este episódio, infelizmente, não é caso isolado. Serve para ilustrar como certos privilégios e manhas se perpetuam, alimentados por uma cultura de impunidade e falta de respeito pelo próximo. E, acima de tudo, mostra que, por vezes, o silêncio só contribui para perpetuar situações inaceitáveis. Que fique o exemplo: entre calar e agir, é preferível não passar indiferente.
Texto e foto
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