quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Crónica de uma sala de espera


Há espaços que por mais distintos que pretendam ser, acabam por revelar que as desigualdades e idiossincrasias da sociedade portuguesa estão à flor da pele. Uma sala de espera de um conceituado hospital privado em Lisboa, onde se cruzam diferentes mundos, serviu de cenário para esta crónica tão caricata quanto revoltante.

De repente, como se estivesse num palco onde todos ao redor fossem meros figurantes, entra uma senhora com ares de diva ofendida. O seu olhar altivo denunciava um desdém profundo, ainda mais quando comparou o prestigiado hospital particular àquilo que, na sua opinião, seria um hospital público.
O seu descontentamento não tardou a manifestar-se assim que chamada ao guichet, respeitando a ordem de chegada imposta pela máquina das senhas. Uma vez lá, não hesitou em destilar destempero sobre a funcionária, como se estivesse a dar ordens à sua empregada doméstica. Entre falas carregadas de pretensa educação e insultos disfarçados, soltou a frase: “sim, é que nós pagamos a pronto”.
Não satisfeita, continuou a sua indignação ao afirmar que era vergonhoso o hospital atender beneficiários da ADSE, sugerindo uma separação entre quem paga “a pronto” e quem recorre a sistemas de saúde do Estado. A sua postura, carregada de arrogância, não provocou reação nos presentes, mas não deixou de incomodar quem testemunhava aquele espetáculo triste.
Confesso que naquele momento senti vontade de esclarecer a senhora que, embora não sendo eu beneficiário da ADSE, também tinha pago a pronto todos os exames e que, tal como ela, teria de desembolsar o valor total da consulta de urologia, pois a minha entidade já não tem acordo com aquele serviço. Os direitos ali eram iguais para todos, gostasse ou não a senhora dona.
Quando parecia que o episódio estava a terminar, entra em cena outro personagem: desta vez um cavalheiro, igual em estatuto à diva, mas no masculino. Este, ignorando deliberadamente a máquina das senhas, caminha decidido a um dos guichets e, sem cerimónias, interrompe o atendimento de quem ali estava, bradando: “tenho de ser atendido já, porque venho à rasca”.
A funcionária, sempre cordial, sugere-lhe que tire uma senha prioritária na máquina – coisa que, obviamente, o senhor já sabia mas escolheu ignorar para tentar passar à frente. Com a senha prioritária na mão, é prontamente chamado, saltando a fila das pessoas que ali aguardavam há mais de uma hora. Para espanto de todos, após o atendimento, permaneceu na sala a conversar, demonstrando que a sua urgência era, afinal, bastante relativa.
Por norma ninguém reage, mas eu decidi não me calar. Aproximando-me do dito cujo, fitando-o nos olhos, afirmei com ironia: “É evidente a gravidade do seu problema de saúde e as mil razões para estar tão ‘à rasca’ que nem pôde esperar pela sua vez”. O fulano, com o mesmo ar superior, perguntou: “Mas quem é você?”. Respondi de pronto – Sou o José do Alentejo, com toda a certeza um homem muito mais bem formado e respeitador do que VOCÊ – acentuei deliberadamente, o modo rude como ele me tratou.
O gajo entendeu perfeitamente o recado e preferiu não dar troco. Fui chamado pela ordem da prévia marcação a pagar a consulta e marcar os próximos exames. Quando regressei à sala, já não o vi. Talvez, afinal, tivesse pressa em sair, ou talvez a minha intervenção o tenha feito repensar o seu comportamento, ainda que por instantes.
Na sala, uma idosa acompanhada pela filha continuava à espera de ser chamada para uma consulta marcada para as dez da manhã, já passava das onze e meia. Apesar das reclamações, a resposta do guichet era sempre a mesma: “A senhora tem de aguardar…”. O contraste não podia ser maior – enquanto uns berram e são imediatamente atendidos, outros, educados e pacientes, continuam a esperar.
Na minha aldeia, quando alguém diz que vem à rasca, recomendasse-lhe que vá cagar p’ra aliviar. Mas fica a questão: desde quando um piso de hospital exclusivamente destinado a consultas faz também serviço de urgência?
Este episódio, infelizmente, não é caso isolado. Serve para ilustrar como certos privilégios e manhas se perpetuam, alimentados por uma cultura de impunidade e falta de respeito pelo próximo. E, acima de tudo, mostra que, por vezes, o silêncio só contribui para perpetuar situações inaceitáveis. Que fique o exemplo: entre calar e agir, é preferível não passar indiferente.
Texto e foto