quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Memórias de um fiel amigo

Existem animais de estimação que marcam profundamente a nossa vida, deixando recordações e histórias que perduram no tempo. O Rex, um cãozarrão preto de pelo lustroso, foi um desses companheiros, protagonista de muitas peripécias que ainda hoje lembramos com saudade e carinho.
Esse nosso amigo nasceu de um cruzamento raro: do labrador pisteiro do Destacamento da GNR de Almada e da cadela pastor alemão, Lai, do capitão Ochôa, à data comandante dessa sub-unidade. Depois, já em Nisa, a Lai deu à luz uma ninhada de cachorros robustos, todos semelhantes a ela, exceto o Rex, que herdou o pelo completamente preto e as orelhas caídas do pai labrador, contrastando com os irmãos de orelhas espetadas.
Por ter o aspeto menos desejado, ninguém quis ficar com Rex, mas para mim, ele era o mais bonito. Decidi então oferecê-lo ao Pedro que tinha apenas nove anos e logo se apaixonou pelo novo amigo, tal como o Manel já tinha a sua gata siamesa, a Princesa. O Pedro e o Rex tornaram-se inseparáveis e mesmo depois de mais de duas décadas desde a sua partida, o Rex continua presente nas nossas conversas e memórias como qualquer outro velho e querido amigo que deixou saudades.
Na nossa casa, todos os animais foram sempre mimados e muito bem tratados, por isso o Rex não foi exceção. Cresceu rápido, tornando-se um gigante imponente, dócil, belo e muito valente. Nada o assustava; corria pelo sem medo de nada, enfrentando saca-rabos, raposas, vacas e bois, sempre pronto para proteger e explorar.
Apesar da sua coragem era teimoso, inquieto e muitas vezes fugia atrás de outros animais ignorando os meus chamados. Não raro perdia-o de vista e ficava preocupado, até que ele lá voltava a aparecer sempre esbaforido e com a língua de fora após as suas correrias.
Quando a família mudou definitivamente para a Beirã, as nossas tardes tornaram-se momentos de convívio e exercício. Assim que chegava de Portalegre soltava o Rex e juntos partíamos para grandes passeios, subindo canchos e desbravando matagais até às barreiras do rio Sever.
Durante um desses passeios vivemos uma das histórias mais engraçadas e marcantes. Seguíamos pela “carreteira” da tapada dos Carvalhos de Roque quando o Rex pressentiu algo por entre as giestas. Sem hesitar lançou-se mato adentro num ladrar furioso, determinado a afugentar o responsável por aquele reboliço entre as giestas. Perdi-o de vista, mas em poucos segundos vi-o regressar pelo mesmo caminho apavorado, a ganir e a fugir de uma mãe-javali furiosa que o perseguia com sopros e grunhidos ameaçadores.
Atrás dela vinha uma dúzia de bácoros-javalis. E a marrã, zelosa, protegia os seus bebés contra aquele intruso gigante que os ameaçava. Por isso furiosa contra-atacou, investindo decididamente, pronta para a luta. Pouco habituado a que até as vacas enormes investissem contra ele mesmo que com bezerros ao seu lado, o Rex acagaçou-se e encetou uma retirada estratégica digna de se ver!
Patas para que vos quero!
Embora furiosa, a mãe-javali quando comigo encarou deu meia-volta e embrenhou-se de novo com a prole pelo mato. Mas o Rex nessa tarde não mais ousou afastar-se de mim atento a tudo, por mais pequeno que fosse algum movimento em nosso redor.
Divertido, dizia-lhe: É só o vento, Rex…
Nunca tinha presenciado nada semelhante. A coragem e a ousadia do Rex, aliados à sua ingenuidade e ao instinto de explorar, proporcionaram-nos momentos únicos, recheados de emoção e gargalhadas. Não era apenas um animal de estimação; era um membro da família e um amigo insubstituível, cujas histórias recordamos amiúde e merecem ser contadas.