domingo, 2 de novembro de 2025

A reforma e os seus "senãos"


O ser humano é, por natureza, gregário. Precisa de camaradagem, de partilhar alegrias e dissabores, de sentir que faz parte de algo maior do que si mesmo. O segredo para amenizar os pesares do destino está, muitas vezes, na soma de pequenos nadas, gestos simples, aparentemente insignificantes, mas de valor incomensurável.
Por exemplo, tomar um café com os amigos, é mais do que uma bebida: é um ritual de sobrevivência anímica.
Como, quantas vezes, as rotinas nos enfadam, mas quanto são necessárias para mantermos a mente ativa, o corpo em movimento e os dias organizados. Passamos a vida a desejar o que não temos, a desprezar o que, em breve, começaremos a valorizar. Somos contraditórios, vacilamos facilmente entre opiniões opostas, raramente satisfeitos com o que temos ou fazemos.
A rotina, por mais monótona que pareça, estrutura o quotidiano e confere-lhe sentido.
Muitos idealizam a aposentação como um mar de rosas, a sonhada libertação dos grilhões do trabalho livre de horários ou chefes, de encargos pesados ou preocupações laborais. É verdade: porque o reformado pode dormir mais um pouco, já não tem de prestar contas a patrões, ou cumprir contratos incertos.
São privilégios doces, mas que não escondem por completo as amarguras que espreitam.
Com o tempo muitos descobrirão que a aposentação traz consigo desafios inesperados: pensões exíguas que exigem malabarismos, a vitalidade que se esvai, a saúde que se fragiliza, a ausência das tarefas diárias que davam foco e utilidade ao dia-a-dia. Perde-se o contacto com os antigos colegas com quem se partilharam anos de vivências.
A inatividade, longe de ser apenas descanso, pode transformar-se em tédio, melancolia e até depressão.
A reforma coincide inevitavelmente com a reta final da nossa existência, altura em que mais se sente a ausência dos que partiram e o peso da saudade. A vida que tanto deu, vai tirando aos poucos, deixando espaço para a solidão e para a mágoa.
É então que se compreende com uma clareza por vezes dolorosa o que significa verdadeiramente a solidão e a finitude da condição humana.
Apesar de todos os senãos da reforma, os seus pequenos prazeres – um convívio mais, uma conversa inesperada, um sorriso partilhado – ajudam a afastar os demónios que por vezes nos atormentam. São esses momentos de ligação humana que recordam ao reformado que está vivo, que ainda há bênçãos a aproveitar e que a vida, mesmo na sua reta final, pode e deve ser vivida com intensidade e gratidão.
A aposentação é feita de somas e subtrações: das rotinas que organizam, de convívios que aquecem a alma, de perdas que custam e de pequenos prazeres que compensam. O segredo está em apreciar os pequenos gestos e dar-lhes o justo valor, percebendo que, no fundo, é deles que se faz a felicidade possível.