quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Memórias à lareira da casa natal


Sentado à lareira, ouvindo o crepitar da lenha a arder e mirando a dança das labaredas no silêncio benfazejo desta casa onde nasci e moro ainda, quantas memórias me invadem e embalam.
É nas noites de inverno, quando o frio aperta lá fora e o vento assobia pelas frinchas que sempre consegue descobrir, que o calor do fogo se torna mais do que físico. Torna-se um calor de alma, uma presença viva dos que aqui viveram comigo.
Cada chama parece transportar vozes e risos, confidências sussurradas e histórias de antigamente, tecidos na tapeçaria invisível do tempo nesta casa.
Lembro-me da minha infância, quando me sentava no chão à frente da lareira, com os olhos fixos nas brasas em mutação. Ouvir os adultos conversar em surdina, as histórias contadas pelo avô, o cheiro a castanhas assadas ou a sopa quente a fumegar sobre a mesa, tudo isso compõe a minha memória afetiva. O lume era, e é ainda, o coração da casa.
Quantas vezes vi os meus pais partilharem silêncios e olhares cúmplices junto ao fogo, ou as irmãs trocarem segredos enquanto lá fora a noite escurecia ainda mais o mundo. Aqui dentro, no abrigo destas paredes, tudo parecia possível, e cada chama era uma promessa de que a vida segue, mesmo quando tudo lá fora muda.
Hoje, sentado no mesmo lugar, sinto-me guardião destas memórias. O tempo passou, a casa envelhece comigo, mas o fogo mantém-se eterno na sua dança, reacendendo lembranças, sonhos e saudades.
Deixo-me embalar por este calor ancestral e agradeço, em silêncio, por ainda poder chamar lar a este lugar.
(Texto e foto)