No Alentejo de outrora quando os relógios pareciam marcar outro ritmo e a pressa não era companhia de ninguém, as mulas e as carroças reinavam como fiéis amigas das gentes da terra. Eram tempos em que o moderno ainda não se instalara e os caminhos de terra batida desenhavam o quotidiano de quem ali vivia. Cada deslocação era uma pequena epopeia, pontuada por risos, conversas e silêncios partilhados.
Cortejos dos casamentos, abastecer o mercado, ir ao médico ou resolver pendências na vila vizinha eram eventos que mobilizavam a família, o bairro, por vezes até a aldeia inteira. As pessoas vestiam os agasalhos mais quentes no inverno, enrolavam-se em cachecóis e mantas, para enfrentar o frio, ou muniam-se de sombrinhas e guarda-chuvas para se resguardarem da canícula ardente, no verão.
As carroças decoradas com almofadas improvisadas e mantas coloridas, partiam devagar, guiadas por pacientes e experientes mulas. Não era apenas uma viagem, eram momentos de partilha de histórias, de memórias, de sonhos e até de silêncios cúmplices.
Naquela época a vida desenrolava-se sem pressas. O tempo era generoso, permitindo aos viajantes apreciarem as paisagens, os sobreiros e oliveiras que se estendiam pelo horizonte. O caminho, por vezes longo, era suavizado pela companhia dos amigos, vizinhos, familiares, todos juntos contra o frio, o calor ou a solidão.
A entreajuda era regra se a carroça emperrava ou a mula teimava, logo se juntavam mais braços e vozes em auxílio. O destino importava mas a verdadeira riqueza estava no percurso.
Ao longo das viagens as histórias corriam soltas. Contavam-se aventuras dos mais velhos, segredos das terras próximas, lendas que misturavam realidade com a imaginação fértil de quem sabia entreter. O tempo parecia abrandar para ouvir cada palavra, cada gargalhada, cada confidência feita entre um solavanco da carroça e uma paragem junto a uma ribeira.
Não havia GPS, nem rádio, nem urgência em chegar. O que contava era a convivência, o sabor dos momentos partilhados, o calor humano que aquecia muito mais do que qualquer agasalho. No regresso, já se traziam não só mantimentos ou notícias da cidade, mas também novas histórias para alimentar os serões à lareira.
Hoje, quando o mundo parece girar mais depressa do que nunca, recordar esse Alentejo é celebrar a simplicidade e a genuinidade dos encontros. É lembrar que, por vezes, o melhor da jornada não é o destino, mas o caminho feito em boa companhia, ao ritmo lento da carroça e ao sabor da conversa. Porque há memórias que só se escrevem devagar, ao compasso das rodas e do coração.
* Foto de autor desconhecido
(no lugar de Chorilhas - Beirã)
