Gosto da lua. Esse sentimento encontra expressão na presença de duas réplicas suas no meu lar: uma de barro vermelho, de traço simples, no alpendre do primeiro andar, outra, mais elaborada, que contempla três estrelas, inserida num espelho dourado pintado à mão, cuja função é adornar a chaminé da lareira na sala.
Cresci a saltar pedras e barrancos à sua claridade, primeiramente durante as brincadeiras na infância, depois no contrabando da adolescência, e por fim nas visitas semanais às namoradas, antes da incorporação no serviço militar.
Era reconfortante poder enxergar o caminho nessas noites quando necessitava atravessar a pé tapadas e canchais desde a Beirã até aos Cabeçudos, ou aos Aires, ou mesmo à Torre, para além do Pereiro.
As estradas já existiam, claro, embora sem a qualidade das atuais, mas percorrer as inúmeras veredas que cruzavam a região, tornava os trajetos muito mais curtos e menos exaustivos, apesar somarem na mesma alguns quilómetros de percurso.
Multiplicavam-se por estas terras nesse tempo, relatos de medos associados ou não à luz da lua. Destacava-se entre essas narrativas aquele da galinha com pintos que supostamente surgia nas imediações do cemitério, sendo interpretados como um grupo de almas penadas a solicitarem aos transeuntes orações que as salvassem do inferno.
Sobre esse tema recordo uma noite por cerca das quatro da madrugada e sob uma lua plena na trincheira das Chorilhas após ter ido acompanhar a namorada a casa. A dado momento fui surpreendido por um estranho sussurrar:
Ressshhhh... Ressshhhh...
O barulho cessava e eu parava também. Não por medo – juro – mas por uma sincera curiosidade, determinado a perceber a origem do estranho sussurro. Nova lufada de ar e o som repetia-se:
Ressshhhh...
Pensei com alguma ironia já que não dava crédito algum à história:
– Será a galinha com os pintos?
Mentalmente reproduzi o chamar das galinhas como minha mãe fazia para lhes dar o milho:
– Pipi... pipi... pipi...
De repente, enquanto ponderava sobre tais divagações, um novo ressshhh... mas desta vez quase junto a mim.
Observei atentamente e compreendi de imediato.
– Eureka! – exclamei para comigo. Aqui está o misterioso barulho. E assim se inventa um medo...
Tratava-se, na verdade, de folhas secas dos imponentes choupos que à época ladeavam a estrada. Era outono e as árvores perdiam a folhagem. As folhas encarquilhadas e ressequidas levadas pela aragem produziam, ao roçarem o alcatrão, aquele som peculiar que amplificado pelo silêncio da madrugada, assumia um carácter inquietante.
Aproximei-me e pisei-as para confirmar a suposição. Era realmente aquilo. Uma aragem mais forte fez com que, lá atrás, outras irmãs daquela que eu pisara, se lançassem na mesma peregrinação pelo alcatrão, emitindo o inofensivo sussurro na sua procura de abrigo em alguma reentrância dos canchos.
Ressshhh... Ressshhh...
