Fala-se muito em progresso, em modernização, em tornar o país mais competitivo e eficiente. No entanto, ao olharmos atentamente para o que tem sido feito nas últimas décadas, especialmente no que toca à rede ferroviária nacional, torna-se claro que nem sempre o progresso é sinónimo de desenvolvimento equilibrado ou justiça social.
Cada linha encerrada significou não só a perda de postos de trabalho diretos e indiretos, mas também o isolamento de comunidades inteiras, a asfixia do pequeno comércio, a diminuição do acesso a serviços e oportunidades. Tudo isto decidido, muitas vezes, à distância de gabinetes climatizados na capital, por decisores políticos aparentemente alheios à realidade social do interior.
São decisões que atropelam direitos elementares das pessoas, tomadas sem consulta ou sensibilidade para os impactos profundos e duradouros que provocam.
Será progresso construir apenas autoestradas, pontes e outras obras de grande impacto visual e mediático? E o país real, que vive para lá dos grandes centros urbanos, entra no plano de desenvolvimento? Ou será relegado para segundo plano, como tantas vezes acontece, condenado à desertificação e ao envelhecimento, sem perspectivas de futuro?
A verdade é que grande parte da população, especialmente a do interior, se sente esquecida e desamparada pelo poder político. Apesar das queixas e da indignação, ano após ano, eleição após eleição, continuamos a entregar as rédeas do destino coletivo aos mesmos decisores, que pouco ou nada mudam na essência das políticas.
Fica a dúvida se é tristeza, ingenuidade ou mero conformismo, mas o resultado é palpável: passados cinquenta anos de democracia, mais de metade do território nacional está despovoado, sem projetos ou esperança, como exemplifica o Distrito de Portalegre, campeão da indiferença política, da desertificação e do envelhecimento demográfico.
O tempo não volta, é certo, mas há padrões que parecem repetir-se. No tempo da “outra senhora”, falava-se da política dos “três éfes”: Fátima, Futebol e Festas. Curiosamente, apesar de todas as mudanças e avanços, estas parecenças persistem.
As multidões continuam a acorrer a Fátima, as paixões pelo futebol mantêm-se acesas e as festas – sejam elas religiosas, populares ou políticas – continuam a ser momentos de catarse e de união.
É como se, apesar de tudo, o essencial tivesse mudado pouco: o país real continua a viver entre o sagrado, o profano e o espetáculo, enquanto as decisões estruturantes que poderiam transformar verdadeiramente o território são adiadas ou esquecidas.
Esta reflexão não é apenas um lamento, mas um apelo à consciência coletiva. O progresso verdadeiro não pode ser construído à custa do esquecimento de metade do país, nem pode ser reduzido a obras grandiosas que pouco servem às populações mais vulneráveis.
É preciso repensar prioridades, ouvir as vozes do interior, valorizar o património material e imaterial e, sobretudo, devolver dignidade e esperança a quem sente que o tempo passa, mas as soluções não chegam.
Talvez fosse tempo de romper com o ciclo da indiferença e da repetição, para se exigir um progresso que seja, acima de tudo, humano, inclusivo e sustentável.
Foto Pedro Coelho
