quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Memórias à volta da mesa


Não havia nada que proporcionasse maior felicidade ao senhor António Maria Coelho, conhecido pela alcunha de “ti Pexorra”, do que reunir a família em seu redor. Esposa, filhas, filho, genros, nora, netas, netos, cunhadas, cunhados, sobrinhas, sobrinhos, sogros e, inclusive, alguns primos próximos ou distantes, todos encontravam sempre um espaço dedicado no seu coração. A todos era também garantido um lugar em sua casa, junto de si, fosse à mesa – nem sempre farta, mas sempre acolhedora – fosse em torno do lume da ampla e bela chaminé da cozinha, que aquecia a família toda nas longas noites de inverno.
Durante o verão era na varanda do quintal que se realizavam as tertúlias familiares, aproveitando a brisa noturna para amenizar o calor dos dias, tornando o convívio ainda mais aprazível. Não sendo pessoa de muitas palavras, gestos afetuosos ou sorrisos fáceis, apresentava-se, na maioria das ocasiões, com um semblante sério, por vezes austero, transmitindo uma imagem reservada. Contudo, tal postura nunca beliscou a sua generosidade, sendo reconhecido pela disposição em ajudar o próximo e capaz de oferecer a própria camisa a quem dela necessitasse.
Guardo carinhosamente na memória muitos dos seus hábitos de líder da família, como se tivessem ocorrido recentemente. A sua pontualidade ao deitar era inabalável, independentemente de ser noite de Natal ou qualquer outro dia da semana e das visitas. Assim que o sino da igreja badalava as nove horas, fosse verão ou inverno, despedia-se com um “até amanhã” e recolhia-se aos aposentos. De igual modo, ao romper da aurora, era pontual no despertar, mantendo uma rotina rigorosa.
É natural que nós, os mais jovens, permanecêssemos acordados até tarde, pois a alegria e a animação dos encontros adiavam o sono. Por diversas vezes, o ti Pexorra, após um primeiro sono tranquilo e alheio à agitação da casa, surgia descalço e em roupas de dormir, espreitando com satisfação para nos interpelar, na sua inconfundível pronúncia regional: - Atão, mas vocês inda’í tão, filhes?
Herdei dele essa inclinação para reunir regularmente a família em casa. Quantos mais, melhor, apesar de atualmente sermos cada vez menos, tanto do lado familiar como do círculo de amigos. Ainda assim, cada reencontro reveste-se sempre de especial significado.
É muito gratificante quando, nos poucos compromissos que ainda restam, se agenda uma data geralmente ao fim de semana ou em feriado, para partilharmos um arroz de pato, uma favada com enchidos e entrecosto, umas sopas de cachola, um pernil assado no nosso forno a lenha, umas "migas extremeñas de pan" com toucinho frito – ou não fossem as nossas raízes meio espanholas também – ou então, apenas uma bela sopa caseira de entulho com couves do quintal e ossos de suã curtida em sal, à moda da mãe Florinda.
Esses repastos são, acima de tudo, exercícios de evocação de memórias e sabores que nos transportam ao passado, época em que éramos felizes sem o sabermos. Agora com os filhos a viverem longe, restamos aqui apenas eu e a minha companheira de longa data ao “cimo da aldeia” e a minha mana mais nova, a Joaquina, com o seu esposo Zé António, filhas e neto, na “parte de baixo da linha”.
Tal como expressa a fadista Mariza numa das suas melodias “o tempo não para e a gente só repara quando ele já passou”. Constato em particular as últimas décadas da minha vida que não se limitaram a passar, mas a voar. Há mais de trinta anos que acompanhei o meu pai à sua última morada. No entanto, permanece sempre presente no meu coração e nos meus pensamentos, servindo de inspiração para cada reunião, cada gesto de generosidade e cada tradição familiar preservada.
O verdadeiro legado do ti Pexorra não reside apenas na descendência, mas na certeza de que, enquanto houver família reunida à volta da mesa ou do lume, nunca estaremos verdadeiramente sós.
Essa é, para mim, a mais preciosa herança.
* Foto: O "ti Pexorra"
com uma neta ao colo.