Não adianta continuar a assobiar
para o lado e fingir que está tudo bem, ou que não nos damos conta do que salta
à vista e se agiganta aos nossos olhos. Somos cada vez menos portugueses porque
nascem cada vez menos crianças no nosso país.
Razões?
Mil.
E todas muito bem
definidas.
Os jovens casam ou juntam os
trapinhos cada vez mais tarde. Quando por fim resolvem “largar as saias da
mãe" para formarem família já passam sempre dos trinta. Às vezes dos
quarenta. A precaridade no emprego é também, entre muitos outros, o principal
obstáculo que os impede de constituírem família e terem mais do que um
filho.
Há mais acesso à formação de um
modo geral, mas não há depois como, nem onde, tirar dela proveito, na
esmagadora maioria dos cursos eleitos por cada candidato ao seu futuro.
E resta-lhes quase sempre, salvo
raríssimas exceções, deitar mão à primeira coisa que lhes aparece a troco de um
salário mínimo na caixa de uma superfície comercial ou num call center
qualquer, na melhor das hipóteses.
Na minha freguesia nascem 2 bebés
ou poucos mais por ano, enquanto morrem 22 adultos na sua maioria idosos. É uma
precária estatística bem sei, porque precária é também em habitantes a região
onde ela se desenvolveu.
Li algures que somos onze almas
por quilómetro quadrado. E não tenho grandes dúvidas que o mesmo sucede por
esse país fora no seu desertificado interior.
Não acredito que governo algum
consiga reverter esta situação. A sua gravidade é de tal ordem que não haverá
incentivos suficientemente sérios nem capazes de dar a volta a isto, porque
estamos a bater no fundo.
Cinquenta anos de desleixo não se
recuperam em quatro ou cinco.
Nem sequer noutros cinquenta.
Mais de metade do território
continental foi votado ao mais completo abandono e consequentemente nunca mais
será repovoado como já foi.
A inércia dos governos
democraticamente eleitos desde o 25 de abril de 1974 teve como consequência
forçar as populações a buscarem o sustento e fixarem residência definitiva nos
novos territórios que as acolheram em função da sua nova situação laboral. E
os descendentes perderam ou nunca tiveram sequer qualquer apego às suas raízes.
Um povo com mais de oito séculos
de história e de gloriosos feitos, perdeu por completo a sua identidade
maioritariamente rural por absoluta incompetência e falta de visão de quem
deveria prever o futuro coletivo de todo o território não só de norte a sul,
mas também de poente ao nascente, não apenas do litoral como se Portugal fosse
só a faixa marítima.
Só nunca deixaram,
convenientemente, de prever o futuro para si próprios, bem como o dos seus
descendentes e respetivas elites partidárias.
Não há volta a dar.
José Coelho
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