sábado, 1 de novembro de 2025

A bater no fundo

Foto José Coelho

Não adianta continuar a assobiar para o lado e fingir que está tudo bem, ou que não nos damos conta do que salta à vista e se agiganta aos nossos olhos. Somos cada vez menos portugueses porque nascem cada vez menos crianças no nosso país. 

 Razões? 

 Mil. 

 E todas muito bem definidas.

Os jovens casam ou juntam os trapinhos cada vez mais tarde. Quando por fim resolvem “largar as saias da mãe" para formarem família já passam sempre dos trinta. Às vezes dos quarenta. A precaridade no emprego é também, entre muitos outros, o principal obstáculo que os impede de constituírem família e terem mais do que um filho. 

Há mais acesso à formação de um modo geral, mas não há depois como, nem onde, tirar dela proveito, na esmagadora maioria dos cursos eleitos por cada candidato ao seu futuro.

E resta-lhes quase sempre, salvo raríssimas exceções, deitar mão à primeira coisa que lhes aparece a troco de um salário mínimo na caixa de uma superfície comercial ou num call center qualquer, na melhor das hipóteses.

Na minha freguesia nascem 2 bebés ou poucos mais por ano, enquanto morrem 22 adultos na sua maioria idosos. É uma precária estatística bem sei, porque precária é também em habitantes a região onde ela se desenvolveu.

Li algures que somos onze almas por quilómetro quadrado. E não tenho grandes dúvidas que o mesmo sucede por esse país fora no seu desertificado interior.

Não acredito que governo algum consiga reverter esta situação. A sua gravidade é de tal ordem que não haverá incentivos suficientemente sérios nem capazes de dar a volta a isto, porque estamos a bater no fundo.

Cinquenta anos de desleixo não se recuperam em quatro ou cinco. 

Nem sequer noutros cinquenta.

Mais de metade do território continental foi votado ao mais completo abandono e consequentemente nunca mais será repovoado como já foi. 

A inércia dos governos democraticamente eleitos desde o 25 de abril de 1974 teve como consequência forçar as populações a buscarem o sustento e fixarem residência definitiva nos novos territórios que as acolheram em função da sua nova situação laboral. E os descendentes perderam ou nunca tiveram sequer qualquer apego às suas raízes.

Um povo com mais de oito séculos de história e de gloriosos feitos, perdeu por completo a sua identidade maioritariamente rural por absoluta incompetência e falta de visão de quem deveria prever o futuro coletivo de todo o território não só de norte a sul, mas também de poente ao nascente, não apenas do litoral como se Portugal fosse só a faixa marítima.

Só nunca deixaram, convenientemente, de prever o futuro para si próprios, bem como o dos seus descendentes e respetivas elites partidárias.

Não há volta a dar.

José Coelho