As redes sociais nasceram e multiplicaram-se com o intuito de aproximar pessoas, promover a partilha de ideias e facilitar o diálogo entre indivíduos de todos os cantos do mundo. No entanto, ao longo dos anos, estes espaços digitais tornaram-se também palco para comportamentos nocivos, alimentados pelo anonimato e pela falta de consequências. O ambiente virtual, outrora visto como uma extensão da liberdade, hoje é sinónimo de toxicidade e impunidade
A facilidade de criar perfis falsos, usar fotografias roubadas ou recorrer a nomes inventados transformou as redes sociais no esconderijo perfeito para gente que, protegida pelo anonimato, diz aquilo que nunca teria coragem de afirmar cara a cara. É fácil ser cruel quando ninguém conhece o teu rosto; mais fácil ainda apontar o dedo quando as consequências parecem inexistentes.
O resultado é um ambiente digital cada vez mais tóxico, onde a responsabilização é escassa. A internet, por vezes, parece uma terra sem lei, onde tudo é permitido: insultos, rumores, mentiras e ataques pessoais. E no fim basta apagar o perfil para que tudo pareça desaparecer, mas as marcas ficam, tanto na imagem pública da vítima como, sobretudo, nas suas feridas psicológicas.
O impacto dos ataques virtuais vai muito além do ecrã. Quem é alvo desta violência digital enfrenta a ansiedade, o medo, a vergonha e uma sensação de impotência. O agressor protegido pelo anonimato tem sempre a vantagem, enquanto a vítima fica a lidar com as consequências reais. Infelizmente estes danos são muitas vezes ignorados ou minimizados como se o sofrimento virtual fosse menos legítimo que o físico.
As próprias plataformas digitais contribuem para este ciclo vicioso. Apesar de prometerem segurança e moderação, fecham os olhos ao ódio se este gerar cliques e visualizações. As ações de bloqueio são superficiais: bloqueia-se uma conta e, minutos depois, surge outra igual. O que se perpetua é um ciclo de violência, disfarçado de liberdade de expressão, sem consequências reais para os agressores.
Há uma linha clara entre opinar e ofender. A liberdade de expressão não deve ser confundida com liberdade para agredir ou humilhar. No entanto esta fronteira tem sido ignorada há demasiado tempo, tornando o ambiente online cada vez mais hostil. É urgente relembrar que respeito e empatia são fundamentais para qualquer forma de comunicação, seja ela presencial ou virtual.
A falta de responsabilização é um dos principais motivos para o crescimento do ódio nas redes sociais. Por isso, medidas mais rigorosas, como multas ou sanções financeiras, poderiam ser um travão eficaz para quem escolhe criar perfis falsos e espalhar discursos de ódio. Muitas vezes o medo de ser apanhado é o único limite para quem não tem empatia nem respeito pelos outros.
As redes sociais têm o potencial de serem espaços de partilha, diálogo e crescimento. No entanto se não forem implementadas regras claras e consequências efetivas, continuarão a ser campos de batalha invisíveis, onde tudo parece ser permitido. O mais preocupante é a normalização do ódio, como se fosse parte natural da internet.
Não é. E não deve ser.
A internet precisa de regras, de consequências e, acima de tudo, de humanidade. É fundamental que a sociedade, as plataformas e os utilizadores reconheçam o impacto real das palavras e das ações no ambiente virtual. Só assim será possível transformar as redes sociais em espaços verdadeiramente seguros, inclusivos e propícios ao desenvolvimento coletivo.
