sábado, 15 de novembro de 2025

Outono e nostalgia


Nunca as noites me pareceram tão longas e monótonas. O vento a sibilar pelas frestas, o tamborilar monótono da chuva lá fora, o silêncio inquietante das ruas desertas onde se sucedem casas com as portas fechadas pela ausência de quem as habitou. As janelas às escuras como olhos que cegaram e há muito deixaram de vislumbrar qualquer centelha de luz.
Resta o aconchego do lume. Mas até esse apenas aquece o corpo por fora. Por dentro a nossa alma continua gelada, tão grande é a nostalgia que de tudo isto emana. À nossa volta só abunda agora a ausência de vida. Nem mesmo o vistoso crepitar das chamas e o alegre estalar das brasas em combustão conseguem animar tão silenciosos serões.
O outono para muitos é apenas uma estação em que os dias ficam mais curtos e as noites mais longas. Mas para quem habita estes lugares de silêncios onde as casas parecem guardar histórias esquecidas, cada rajada mais fria de vento traz consigo uma lembrança, e em cada gota de chuva ecoa a saudade do que já foi alegre e cheio de vida. As ruas desertas carregam o peso de passos outrora apressados, de risos e conversas que agora se dissolveram no tempo.
E o lume, fiel companheiro dos serões grandes, oferece um conforto ilusório. Aquece-nos por fora e mantém viva a esperança de que talvez o seu calor se propague aos recantos mais frios da nossa alma. Mas a solidão é tão densa que nem o fogo mais intenso consegue diluí-la. Ficam as brasas a crepitar como se tentassem em vão preencher o vazio deixado pelos que já partiram ou se perderam.
Nestes dias chuvosos em que a melancolia se entranha nos ossos e no espírito, aprendemos a valorizar os pequenos gestos de aconchego: uma palavra amiga, um chá quente, um livro no colo. A solidão se por um lado pesa, por outro ensina-nos a olhar para dentro, a conhecer melhor o próprio coração e a perceber que, por vezes, é no silêncio que encontramos as respostas mais profundas.
Que este tempo, por mais triste que pareça, seja também tempo de reflexão e de resiliência. Que o lume, mesmo breve, mantenha viva a centelha da esperança. E que, quando o bom tempo voltar, as portas se abram de novo e as janelas deixem entrar toda a luz que hoje nos falta.
Texto e foto