quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Existem anjos sobre a terra

Subimos a serra pelos carreiros pedestres e alcançámos mais de uma hora depois a capelinha de Nossa Senhora da Penha. Tal como me acontece sempre em Marvão, quantas mais vezes lá vou, mais deslumbrante acho a paisagem que nos cerca e mais gosto de tudo aquilo que os meus olhos me oferecem.
Sentámo-nos à sombra da capelinha naquela espécie de poial de pedra virado ao norte, com toda a zona verdejante da encosta do Martinho e com as hortas do Brejo aos nossos pés, enquanto a vista alcançava mais além Póvoa e Meadas, Montalvão e as terras da Beira até aos cumes da Gardunha e da Estrela, onde se situavam as “minhas” inesquecíveis Minas da Panasqueira, cujos perfis se vislumbravam muito longínquos e a quererem tocar o céu por entre as neblinas daquela ensolarada manhã.
- Pouse a espingarda e sente-se aqui ao pé de mim! Sugeriu, algo cansado da subida, o camarada comandante da patrulha. Assim fiz, continuando no entanto absorto e pouco comunicativo.
- Coelho, está tudo bem consigo? Perguntou ele.
- Sim, está tudo bem! Respondi.
- Então porque vem assim a modos que apoquentado? Volveu ele sem desistir.
Permaneci em silêncio, indeciso entre desabafar ou ficar calado. Gostava dele como pessoa, como amigo, como camarada no serviço e como bom vizinho que era também. Mas da maneira que as coisas estavam, eu já não sabia bem se não seria melhor falar pouco e só mesmo o necessário.
Como continuei calado e perdido nos meus pensamentos, o camarada rematou:
- Tudo bem, se não me quer dizer não diga, são coisas da sua vida. Desculpe ter perguntado…
Percebi, pelo tom da sua voz, que ficara decepcionado com o meu silêncio e aquilo foi como que um abanão na minha consciência. Era um amigo que estava a falar comigo. Um amigo generoso, preocupado, que merecia por isso mesmo e não só, uma explicação.
E de repente comecei a falar.
Ele ouviu-me sem nunca me interromper apesar de eu ter estado bem mais de meia hora a falar emocionadamente.
Quando me calei, aquela boa pessoa, aquele extraordinário amigo, apenas me perguntou tranquilamente e sem qualquer vestígio de surpresa:
- Vai meter o requerimento para se ir embora da GNR e voltar para as Minas. E já pensou no bem-estar da sua família e no futuro dos seus filhos?
Notei pelo semblante e pela forma como abanava a cabeça em sinal de desaprovação, que não concordava nada comigo. Ouviu-me atentamente, mas sempre a abanar a cabeça como quem diz não, não estou de acordo!
E continuou, de sua justiça:
- Coelho, preste atenção ao que lhe vou dizer: Desde que você entrou para a GNR e por suspeitas de ser comunista que o querem por na rua. Só não o conseguiram porque você soube defender-se com boas notas e não lhes deu outros argumentos. Se você meter hoje o papel para sair, estará a fazer exatamente o que eles querem que você faça.
- Agora diga-me. Acha mesmo que vale a pena? Acha que eles merecem que você sacrifique o seu futuro e o da sua família?
Eu ouvia-o fascinado pela clarividência do seu raciocínio. No fundo, muitos dos seus argumentos eram o eco do meu subconsciente. Tinha lutado contra tantas provocações e tinha conseguido levar a melhor, protegido apenas pelo escudo da minha razão e consciência…
Como fiquei em silêncio a conjeturar e a assimilar o que ele me tinha dito, continuou:
- Até concordo que você saia deste posto. Mas não para as Minas da Panasqueira, nem sequer para outro posto qualquer, porque em todos você irá encontrar coisas boas, mas também as chatices normais de qualquer outra profissão.
- Se eu fosse a si sairia sim, mas de cabeça erguida e para melhor! Concorra a cabo. Você é capaz que eu já vi que é. Todos os anos saem convites na ordem de serviço para poder concorrer quem quiser.
- Vá-se preparando e quando chegar o momento aceite o convite. Assim vai à sua vida por ter subido de posto e por mérito seu, dando uma valente bofetada de luva branca em todos esses que querem correr consigo…
Fiz exatamente o que ele me aconselhou e tivemos a sorte de o celebrarmos juntos, três anos depois.
Onde quer que estiver, obrigado, camarada Faustino Marques. Muito mais que um grande amigo, foi também um anjo com quem tive a sorte e o privilégio de me cruzar na vida. Descanse em paz junto de Deus onde merece estar não só por me ter ajudado naquela hora má, mas também por ser um dos melhores seres humanos que conheci.
Imagem dos meus adereços pessoais para Grande Uniforme da GNR, a partir de Sargento-Ajudante.
Foto Pedro Coelho