O contrabando da nossa raia Marvaneja foi muito mais do que uma simples atividade ilícita; foi um negócio que moldou comunidades, identidades e relações interculturais ao longo de gerações. No vaivém constante por essa linha invisível que separa os dois países, contrabandeava-se um pouco de tudo. No entanto, para além das mercadorias, cruzavam-se também histórias, afetos e hábitos que definiram a vida destas aldeias raianas.
O contrabando era, naquele tempo, um modo de subsistência para muitos. As autoridades mantinham vigilância apertada sobre as atividades mais lucrativas e perigosas, como o transporte de volfrâmio, cujos vestígios ainda hoje se podem observar nas barreiras do rio Sever. No entanto, o engenho e a astúcia dos contrabandistas permitiam-lhes ludibriar a fiscalização e assegurar o comércio entre os dois lados da fronteira.
De dia, as aldeias eram pacatas comunidades de camponeses; à noite, tornavam-se palco de uma movimentada rede de contrabandistas e guardas, que se espreitavam e testavam mutuamente.
O contrabando foi também responsável pelo estreitamento de laços entre portugueses e espanhóis. Casamentos mistos, famílias divididas entre países, e uma toponímia e linguagem que se misturavam naturalmente: palavras portuguesas adquiriram sotaque espanhol e vice-versa, numa riqueza linguística única. Até a gastronomia sofreu influência, misturando sabores e tradições dos dois lados da raia.
Essa comunhão fez com que a fronteira fosse menos uma barreira e mais uma ponte de intercâmbio humano.
Guardas fiscais e contrabandistas, muitas vezes vizinhos e até familiares, partilhavam os mesmos caminhos. Alguns guardas filhos de antigos contrabandistas, alguns deles até, mestres também desse ofício antes de serem guardas fiscais – como como eu próprio fui, antes de ser guarda republicano – conheciam como ninguém caminhos e atalhos, o que lhes servia agora para melhor vigiarem o transporte proibido dessas mercadorias.
Era uma convivência marcada pela rivalidade institucional, mas também pelo reconhecimento mútuo da necessidade que servia todos os lados. O contrabando era o sustento comum aos guardas, aos contrabandistas e aos comerciantes porque gerava uma economia paralela que alimentava bocas e construía as histórias de vida de cada um.
Com o tempo a vigilância tornou-se desnecessária, os guardas fiscais foram extintos, os contrabandistas envelheceram e os trilhos outrora movimentados caíram no esquecimento. O silêncio tomou conta dos caminhos hoje apenas percorridos por animais selvagens em busca de alimento. As aventuras cessaram e as memórias destes tempos começam a perder-se, ameaçadas pelo esquecimento.
O contrabando fez parte da história coletiva destas aldeias raianas, constituindo o pão de muitos e o cenário de incontáveis histórias. Escrever sobre essas memórias é um ato de justiça para com os protagonistas e para com a identidade das comunidades fronteiriças. São narrativas credíveis contadas por quem as protagonizou e dão corpo à história local que merecem ser registadas e transmitidas às gerações futuras como testemunho de resistência, engenho e convivência na adversidade.
O contrabando na raia não foi apenas uma atividade ilegal; foi um fenómeno social, cultural e económico que uniu povos e forjou identidades. A preservação das suas memórias é fundamental para que não se perca a riqueza das experiências vividas e para que se compreenda o impacto profundo que o contrabando teve não só nas trocas materiais, mas também nas relações humanas e na cultura de todas as comunidades dos dois lados da raia.
Texto e foto
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