Nem vale a pena lamentar. A sangria de gente que “abalou” para os grandes centros urbanos em busca de melhores condições de vida deixou cicatrizes profundas na identidade rural do país. Ao contrário do que promete o velhinho Cante Alentejano, “vou-me embora vou partir mas tenho esp’rança” essa esperança de regresso é uma ilusão, porque quem parte raramente volta, exceto pontualmente.
A maioria dos que se foram eram já mais velhos do que novos e levavam como prioridade encontrar trabalho, após serem privados inesperadamente dele graças a decisões políticas que, por mais que culpemos, não devolvem o que se perdeu. Percorrer hoje a qualquer hora do dia ou da noite as ruas de muitas aldeias e até vilas, é sentir a ausência de vida, de cumprimentos, de convivência. O quotidiano tornou-se um espaço vazio, onde o “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” se perderam com os passos daqueles que partiram.
Na missa dos sábados, estranha desde a sua antecipação do ritual dominical, o reduzido número de fiéis denuncia o envelhecimento e o isolamento social da comunidade. No inverno a escuridão e o frio afastam os poucos que restam; a volumetria da igreja torna inútil qualquer tentativa de aquecimento e o resultado são celebrações onde há mais bancos do que pessoas.
A melancolia sente-se inevitavelmente. Após dedicar noventa por cento da vida à aldeia, às suas gentes, usos e costumes, sinto que o meu esforço passa completamente despercebido. O empenho em cá fixar a residência familiar permanente, bem como a luta pela preservação das nossas memórias, raízes, usos e costumes têm sido um incansável exercício de resistência, face ao abandono imposto pelo poder central, independentemente da ideologia de quem governa.
O apego, assim como este sentimento profundo de pertença à Beirã, a Marvão, ao berço e à paixão que marcou toda a minha vida, é um partido do qual sou fervoroso militante e nunca abdicarei, apesar de sentir, cada dia mais, que lutar contra o esquecimento a que fomos condenados, é quase imitar D. Quixote de La Mancha a batalhar sozinho contra moinhos de vento. Talvez seja o envelhecer, talvez seja também o peso do tempo e das memórias que se esvaem.
Por fidelidade aos meus princípios, sempre recusei favores, cargos ou benefícios, por uma questão de ética, mas é perfeitamente visível que a maior percentagem das pessoas que “alinham” em cargos de relevo, só se importam com os seus próprios interesses, com os benefícios que irão usufruir, o “emprego” bem pago e as pensões vitalícias a que terão direito, se conseguirem três mandatos consecutivos.
Há, no entanto, quem como eu resista e continue a tentar manter vivas as memórias, as raízes, usos e costumes desta milenar região, lutando pelo que considera ser a mais valiosa herança dos nossos antepassados. Essa luta, ainda que solitária e por vezes ingrata, é indispensável para evitar que um património tão rico e tão nosso se perca e que o silêncio que o rodeia se torne definitivo.
Foto Maria Coelho
