domingo, 30 de novembro de 2025

Novo Ano Litúrgico

Domingo I do Advento - Ano A - Igreja Paroquial
de Nossa Senhora do Carmo na Beirã

Foto José Coelho 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Coisas que leio e gosto

PÂNICO (gripe)
Durante mais de 40 anos de serviço médico, não houve um único inverno que não viesse acoplado ao velho pânico da GRIPE — as agruras do frio somadas às agruras da epidemia.
Já a COVID, essa, não tem estação: é anual. Permanente. Democrática na chatice.
Quase todos os anos surgia o anúncio apocalíptico: “Vem aí um vírus novo!”
Nos Centros de Saúde, gerava-se o pânico — e muitas vezes mais no pessoal de saúde do que nos doentes.
As urgências, que agora se diz serem o caos, sempre foram o caos.
Eu estive lá. Vi o caos antes de ser moda.
E agora, de novo, o pânico:
“Vem aí uma estirpe que a vacina não cobre!… Mas vacine-se, porque é melhor vacinar do que não vacinar…”
O mantra habitual.
Há muitas formas de estimular a imunidade, mas a pergunta continua a cair-me em cima, semana sim, semana sim:
— “Sr. Doutor, devo ou não devo vacinar-me contra a COVID? E contra a gripe?”
A minha resposta sincera?
Não sei. Você é que sabe.
Mas posso ajudar a pensar.
A SARS-CoV-2 (COVID) é hoje um vírus endémico. Fica por cá todo o ano, como a humidade nas paredes velhas. Estamos em contacto permanente com ele, o que facilita a tal imunidade natural pela infeção.
A suscetibilidade grave anda pelos 2%.
Desses 2%, apenas uma pequena fração morre — idosos, imunodeprimidos, fragilizados.
A vacina, que se diz reduzir a sintomatologia, não evita a infeção, nem a transmissão, nem garante grande duração (4 a 6 meses, com sorte).
E também não é isenta de efeitos colaterais, uns mais simpáticos, outros menos.
É facultativa, indicada sobretudo para a faixa mais vulnerável, segundo a DGS.
Portanto, quando me perguntam, repito:
fica ao seu critério.
Contudo, deixo o velho ditado da sabedoria popular:
“Avinha-te, abifa-te, abafa-te.”
— vinho quente, boa alimentação e resguardo.
A tríade que nenhum vírus, novo ou velho, conseguiu ainda abolir.
Cuidem-se!…depois logo se vê…

Benjamim Carvalho
Médico

Foto José Coelho

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Manhã


Fresca manhã da vida, recomeço
Doutros orvalhos onde o sol se molha.
Nova canção de amor e novo preço
Do ridente triunfo que nos olha.

Larga e límpida luz donde se vê
Tudo o que não dormiu e germinou;
Tudo o que até de noite luta e crê
Na força eterna que o semeou.

Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.

Miguel Torga, in Libertação 1944

Existem anjos sobre a terra

Subimos a serra pelos carreiros pedestres e alcançámos mais de uma hora depois a capelinha de Nossa Senhora da Penha. Tal como me acontece sempre em Marvão, quantas mais vezes lá vou, mais deslumbrante acho a paisagem que nos cerca e mais gosto de tudo aquilo que os meus olhos me oferecem.
Sentámo-nos à sombra da capelinha naquela espécie de poial de pedra virado ao norte, com toda a zona verdejante da encosta do Martinho e com as hortas do Brejo aos nossos pés, enquanto a vista alcançava mais além Póvoa e Meadas, Montalvão e as terras da Beira até aos cumes da Gardunha e da Estrela, onde se situavam as “minhas” inesquecíveis Minas da Panasqueira, cujos perfis se vislumbravam muito longínquos e a quererem tocar o céu por entre as neblinas daquela ensolarada manhã.
- Pouse a espingarda e sente-se aqui ao pé de mim! Sugeriu, algo cansado da subida, o camarada comandante da patrulha. Assim fiz, continuando no entanto absorto e pouco comunicativo.
- Coelho, está tudo bem consigo? Perguntou ele.
- Sim, está tudo bem! Respondi.
- Então porque vem assim a modos que apoquentado? Volveu ele sem desistir.
Permaneci em silêncio, indeciso entre desabafar ou ficar calado. Gostava dele como pessoa, como amigo, como camarada no serviço e como bom vizinho que era também. Mas da maneira que as coisas estavam, eu já não sabia bem se não seria melhor falar pouco e só mesmo o necessário.
Como continuei calado e perdido nos meus pensamentos, o camarada rematou:
- Tudo bem, se não me quer dizer não diga, são coisas da sua vida. Desculpe ter perguntado…
Percebi, pelo tom da sua voz, que ficara decepcionado com o meu silêncio e aquilo foi como que um abanão na minha consciência. Era um amigo que estava a falar comigo. Um amigo generoso, preocupado, que merecia por isso mesmo e não só, uma explicação.
E de repente comecei a falar.
Ele ouviu-me sem nunca me interromper apesar de eu ter estado bem mais de meia hora a falar emocionadamente.
Quando me calei, aquela boa pessoa, aquele extraordinário amigo, apenas me perguntou tranquilamente e sem qualquer vestígio de surpresa:
- Vai meter o requerimento para se ir embora da GNR e voltar para as Minas. E já pensou no bem-estar da sua família e no futuro dos seus filhos?
Notei pelo semblante e pela forma como abanava a cabeça em sinal de desaprovação, que não concordava nada comigo. Ouviu-me atentamente, mas sempre a abanar a cabeça como quem diz não, não estou de acordo!
E continuou, de sua justiça:
- Coelho, preste atenção ao que lhe vou dizer: Desde que você entrou para a GNR e por suspeitas de ser comunista que o querem por na rua. Só não o conseguiram porque você soube defender-se com boas notas e não lhes deu outros argumentos. Se você meter hoje o papel para sair, estará a fazer exatamente o que eles querem que você faça.
- Agora diga-me. Acha mesmo que vale a pena? Acha que eles merecem que você sacrifique o seu futuro e o da sua família?
Eu ouvia-o fascinado pela clarividência do seu raciocínio. No fundo, muitos dos seus argumentos eram o eco do meu subconsciente. Tinha lutado contra tantas provocações e tinha conseguido levar a melhor, protegido apenas pelo escudo da minha razão e consciência…
Como fiquei em silêncio a conjeturar e a assimilar o que ele me tinha dito, continuou:
- Até concordo que você saia deste posto. Mas não para as Minas da Panasqueira, nem sequer para outro posto qualquer, porque em todos você irá encontrar coisas boas, mas também as chatices normais de qualquer outra profissão.
- Se eu fosse a si sairia sim, mas de cabeça erguida e para melhor! Concorra a cabo. Você é capaz que eu já vi que é. Todos os anos saem convites na ordem de serviço para poder concorrer quem quiser.
- Vá-se preparando e quando chegar o momento aceite o convite. Assim vai à sua vida por ter subido de posto e por mérito seu, dando uma valente bofetada de luva branca em todos esses que querem correr consigo…
Fiz exatamente o que ele me aconselhou e tivemos a sorte de o celebrarmos juntos, três anos depois.
Onde quer que estiver, obrigado, camarada Faustino Marques. Muito mais que um grande amigo, foi também um anjo com quem tive a sorte e o privilégio de me cruzar na vida. Descanse em paz junto de Deus onde merece estar não só por me ter ajudado naquela hora má, mas também por ser um dos melhores seres humanos que conheci.
Imagem dos meus adereços pessoais para Grande Uniforme da GNR, a partir de Sargento-Ajudante.
Foto Pedro Coelho

Memórias

Coleção de miniaturas dos barretes em uso na GNR do meu tempo no ativo

O meu primeiro "acto oficial" como Cmdt do PT Nisa em Agosto 1985

Coleção de estatuetas com os diversos uniformes da GNR do meu tempo no ativo

Coisas que leio e gosto

INVERNO!
O inverno costuma exercer uma influência marcante sobre o estado de espírito das pessoas. As temperaturas mais baixas, os dias curtos e a luminosidade reduzida alteram não apenas a rotina, mas também processos biológicos ligados ao humor. A menor exposição à luz solar, por exemplo, impacta a produção de serotonina — neurotransmissor associado ao bem-estar — e pode aumentar a sensação de cansaço, desânimo ou irritabilidade. Também influencia o ritmo circadiano, fazendo com que muitas pessoas sintam mais sono ou apresentem dificuldade para manter a disposição do dia a dia.
Além dos fatores fisiológicos, o inverno pode afetar aspetos emocionais e sociais. As atividades ao ar livre diminuem, os encontros tornam-se menos frequentes e a tendência ao isolamento aumenta, o que pode potencializar sentimentos de solidão ou melancolia. Para alguns, o clima frio desperta um desejo de recolhimento e introspeção, que pode ser vivido de forma positiva, como um período de pausa e reflexão. Para outros, porém, o mesmo cenário traduz-se em queda de motivação e maior sensibilidade emocional.
Por outro lado, muitas pessoas associam o inverno a conforto e acolhimento. Rituais como beber uma bebida quente, usar roupas aconchegantes ou passar mais tempo em casa podem gerar sensação de segurança e tranquilidade. A estética da estação, com seu clima mais intimista, também pode inspirar criatividade e promover momentos de conexão consigo mesmo.
Em geral, o impacto do inverno sobre o estado de espírito varia de pessoa para pessoa. Enquanto alguns enfrentam desafios emocionais, outros encontram nessa estação um convite ao descanso e ao aconchego, como é o meu caso. O importante é reconhecer como o corpo e a mente reagem às mudanças e buscar estratégias saudáveis — aproveitar a luz natural, manter uma rotina equilibrada e cultivar vínculos — para atravessar a estação de forma mais leve.
Helena Sacadura Cabral
PS
Uma das minhas escritoras favoritas

Resposta clara e definitiva


Escolher ficar em silêncio é uma opção de último recurso, quando o meu equilíbrio e tranquilidade emocionais decidem desistir de tentar entender coisas que nunca estiveram ao alcance da minha compreensão, e aceito isso por mais que me custe. Cedo ou tarde o meu silêncio acabará por ser também entendido como uma resposta clara e definitiva.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Outono quase inverno


Quantas e quão doces memórias de outros lumes, de outros serões à lareira, neste exato lugar, na casa bem mais pequena de então,
cheia de vida, de família, de odores de ceia...

Contos da lua cheia (excerto)

Gosto da lua. Esse sentimento encontra expressão na presença de duas réplicas suas no meu lar: uma de barro vermelho, de traço simples, no alpendre do primeiro andar, outra, mais elaborada, que contempla três estrelas, inserida num espelho dourado pintado à mão, cuja função é adornar a chaminé da lareira na sala.
Nunca senti qualquer receio de andar de noite sozinho fosse por onde fosse e muito pelo contrário, sempre apreciei caminhar sob a sua luz suave e cristalina, capaz de transformar a noite em dia e permitir vislumbrar com nitidez a paisagem ao longe.
Cresci a saltar pedras e barrancos à sua claridade, primeiramente durante as brincadeiras na infância, depois no contrabando da adolescência, e por fim nas visitas semanais às namoradas, antes da incorporação no serviço militar.
Era reconfortante poder enxergar o caminho nessas noites quando necessitava atravessar a pé tapadas e canchais desde a Beirã até aos Cabeçudos, ou aos Aires, ou mesmo à Torre, para além do Pereiro.
As estradas já existiam, claro, embora sem a qualidade das atuais, mas percorrer as inúmeras veredas que cruzavam a região, tornava os trajetos muito mais curtos e menos exaustivos, apesar somarem na mesma alguns quilómetros de percurso.
Multiplicavam-se por estas terras nesse tempo, relatos de medos associados ou não à luz da lua. Destacava-se entre essas narrativas aquele da galinha com pintos que supostamente surgia nas imediações do cemitério, sendo interpretados como um grupo de almas penadas a solicitarem aos transeuntes orações que as salvassem do inferno.
Sobre esse tema recordo uma noite por cerca das quatro da madrugada e sob uma lua plena na trincheira das Chorilhas após ter ido acompanhar a namorada a casa. A dado momento fui surpreendido por um estranho sussurrar:
Ressshhhh... Ressshhhh...
O barulho cessava e eu parava também. Não por medo – juro – mas por uma sincera curiosidade, determinado a perceber a origem do estranho sussurro. Nova lufada de ar e o som repetia-se:
Ressshhhh...
Pensei com alguma ironia já que não dava crédito algum à história:
– Será a galinha com os pintos?
Mentalmente reproduzi o chamar das galinhas como minha mãe fazia para lhes dar o milho:
– Pipi... pipi... pipi...
De repente, enquanto ponderava sobre tais divagações, um novo ressshhh... mas desta vez quase junto a mim.
Observei atentamente e compreendi de imediato.
– Eureka! – exclamei para comigo. Aqui está o misterioso barulho. E assim se inventa um medo...
Tratava-se, na verdade, de folhas secas dos imponentes choupos que à época ladeavam a estrada. Era outono e as árvores perdiam a folhagem. As folhas encarquilhadas e ressequidas levadas pela aragem produziam, ao roçarem o alcatrão, aquele som peculiar que amplificado pelo silêncio da madrugada, assumia um carácter inquietante.
Aproximei-me e pisei-as para confirmar a suposição. Era realmente aquilo. Uma aragem mais forte fez com que, lá atrás, outras irmãs daquela que eu pisara, se lançassem na mesma peregrinação pelo alcatrão, emitindo o inofensivo sussurro na sua procura de abrigo em alguma reentrância dos canchos.
Ressshhh... Ressshhh...

in Histórias do Cota

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Silêncio ou multidão

Vivemos numa era em que a presença constante de pessoas, informações e estímulos pode fazer-nos perder o contacto conosco mesmos. Mas o silêncio e a solidão são frequentemente vistos com apreensão, como se fossem sinónimos de solidão indesejada ou isolamento.
Contudo, quer o silêncio quer a solidão, quando abraçados conscientemente, tornam-se aliados valiosos no crescimento pessoal e espiritual. Na quietude damos espaço aos nossos pensamentos, escutamos as vozes interiores e encontramos respostas que, no meio do ruído, dificilmente conseguiremos ouvir.
Alimentar o espírito significa investir tempo em autoconhecimento, reflexão e tranquilidade. É no recolhimento que surgem as ideias mais lúcidas, os sentimentos mais autênticos e a verdadeira paz interior.
Por outro lado, a multidão pode muitas vezes simbolizar distração, superficialidade e vazio. Rodeados por pessoas, corremos o risco de perder a autenticidade e de nos deixarmos levar pela pressão social, esquecendo a nossa verdadeira essência.
A busca constante por companhia ou aprovação de terceiros pode resultar em relações efémeras e em sensações de vazio existencial. Quando a presença do outro serve apenas para preencher um espaço e não para partilhar algo significativo, acabamos por sentir-nos ainda mais sós.
O vazio da multidão é um paradoxo: quanto mais procuramos no exterior, menos encontramos no interior.
Já os benefícios da solidão consciente serão, entre outros:
- Autoconhecimento que nos ajuda a compreender quem realmente somos, livres de influências externas.
- Crescimento espiritual com momentos de introspeção que facilitam o desenvolvimento de virtudes como a empatia, a paciência e a humildade.
- Renovação das energias porque o silêncio propicia um descanso profundo, ajudando a restaurar o equilíbrio emocional.
- Criatividade porque é na calma que as ideias florescem e os problemas encontram soluções inovadoras.
Alimentar o espírito no silêncio não é, por isso, fugir do mundo, mas prepararmo-nos para viver nele com mais plenitude e consciência. Ao invés de nos deixarmos levar pela multidão, aprendamos a valorizar os momentos de recolhimento, pois é aí que reside a verdadeira riqueza do ser.

domingo, 23 de novembro de 2025

Desenganem-se


Não me envaideço com elogios, nem me entristeço com críticas. Sou como sou, não o que dizem, ou pensam, a meu respeito.

O valor das pequenas coisas

Vivemos num mundo onde a pressa se tornou rotina e muitas vezes permitimos que os dias se escoem sem sequer levantar os olhos para o que nos rodeia. A vida, repleta de belezas singulares, acaba por nos passar despercebida enquanto nos afundamos em pensamentos repetitivos, preocupações e angústias que nos consomem sem trazer respostas ou soluções concretas.
Quando foi a última vez que parámos para pensar em tudo o que de bom a vida já nos deu? É verdade que pensar nisso não vai fazer desaparecer os problemas e dificuldades das coisas menos boas que a cada um de nós sempre acontecem, mas quem sabe se esse pensamento positivo não é suficiente para desenhar um sorriso no nosso rosto?
Pequenos momentos podem fazer toda a diferença no nosso bem-estar diário.
Da mesma forma, aquela criança que inesperadamente nos presenteia com o seu olá, genuíno e puro, tem também o poder de nos lembrar que apesar das dificuldades, viver vale a pena,
Atrevermo-nos a sentar na relva e a sentir a textura da terra debaixo dos pés, ou a caminhar descalço junto ao mar, são experiências simples mas profundamente renovadoras, capazes de nos conectar ao mundo e a quem realmente somos.
Muitas vezes justificamo-nos dizendo que não temos tempo.
Mas será que não conseguimos mesmo reservar nem que seja apenas um minuto do nosso dia para parar, respirar e olhar em volta? Esse minuto pode ser o suficiente para recarregar energias, diminuir o peso dos problemas e trazer à tona uma nova perspectiva.
Não se trata pois de uma perda de tempo, mas de deixar a alma respirar.
Adiar momentos de felicidade para amanhã pode ser um risco, porque ninguém nos garante que o amanhã chegará. Por isso valoriza o hoje e não te limites a existir: Vive de forma plena, aproveita cada momento, cada pessoa que caminha contigo, cada expressão de carinho e cada coisa bela em teu redor.
A verdadeira realização encontra-se na capacidade de saborearmos a vida nos detalhes mais simples e o segredo está em parar, por mais breve que seja o instante, para apreciarmos e agradecermos o que temos.
A vida é feita também desses momentos que nos ajudam a respirar fundo e ensinam a sermos verdadeiramente felizes.

Bom domingo!
Foto Maria Coelho