terça-feira, 30 de setembro de 2025

Da têmpera do junco

Atravessar décadas e testemunhar tão profundas transformações na sociedade, nos lugares e até nas pessoas, é um privilégio que nem todos compreendem da mesma forma. Na minha experiência vivida, as mudanças à minha volta foram demasiado radicais num espaço de apenas três ou quatro décadas.
Não eram supostas, talvez, mas tornaram-se inevitáveis. A vida e o tempo impõem-se, mudando usos, costumes e, até, o próprio ritmo da nossa existência.
Passados mais de setenta anos, carrego o olhar de quem parece já ter vivido um século. O mundo que conhecia foi substituído por outro, muito diferente, ainda que a terra e alguns rostos sejam os mesmos.
A aldeia mudou paradoxalmente, pelo mesmo progresso que a fez crescer e a descaracterizou. Algumas pessoas também mudaram, outras partiram em busca de sustento ou apenas por terem chegado ao fim do seu tempo neste lugar.
Aceito que tudo mude e se transforme porque é parte do ciclo natural da vida. Mas surpreende-me e até me inquieta a facilidade com que algumas pessoas se desresponsabilizam dos seus atos, justificando comportamentos sob qualquer pretexto.
Não sou, nunca fui assim, nem pretendo sê-lo. Venho de uma linhagem de gente desta região: Castelo de Vide, Marvão, e, por laços familiares, até da vizinha Espanha. Sempre conheci a família unida, enraizada, respeitadora dos seus e dos outros, orgulhosa dos seus princípios, costumes e tradições.
O valor da sua palavra, era maior que o de qualquer documento timbrado.
Foi nesse contexto de honra, boa educação e respeito que fui criado e ensinado para a vida. Os meus pais e avós nunca tiveram facilidades, mas viveram honestamente, sustentando-se do seu trabalho sem invejar o que era dos outros. Apesar da sua humildade, foram exemplos de perfeição humana, nunca fazendo uso de maus exemplos ou proferindo más palavras.
O respeito era a regra: entre si, para com os filhos e netos, e para com toda a comunidade. É a eles que devo o que sou e, mais importante ainda, o que procurei transmitir aos meus filhos.
Os valores fundamentais não se aprendem na escola, mas desde o berço em casa, no exemplo silencioso e constante de quem nos cria.
Não será por isso agora, mesmo perante a sensação deste “vale tudo” social, que mudarei a minha forma de ser e de estar. Cada um é responsável pelo que diz, faz e pelas razões que encontra para agir.
O tempo, esse sim, continua a ser o melhor juiz: cedo ou tarde, tudo se ajusta ao seu devido lugar.
Não tenho dúvidas.
Por isso mesmo e por mais fortes que sejam os ventos, serei sempre da mesma têmpera do junco. Poderei até algumas vezes vergar, mas quebrar, nunca.

Texto e foto
30. 09. 2025

O Caminhar da Vida


Desde menino que caminhar foi o meu único modo de encurtar distâncias. E não foi uma escolha ditada pela moda ou conveniência, mas sim pelas circunstâncias da vida.
Os meus pais, pessoas humildes, não tinham possibilidades para me comprarem bicicletas ou motorizadas como tinham alguns rapazes da minha idade.
Nesse tempo os carros eram raros na nossa terra e privilégio de poucos. Caminhar era por isso para mim, mais do que um hábito: era uma necessidade.
Recordo-me das longas caminhadas diárias de 15 quilómetros entre a Beirã e o Porto de Espada, quando acompanhei o meu pai na pavimentação da estrada municipal que liga aquela povoação à estrada dos Galegos.
Subempreiteiro dedicado, ensinou-me assim o valor do trabalho árduo, da honestidade e da persistência.
Caminhávamos juntos muito antes do sol nascer, cruzando trilhos pela serra e atalhos por entre tapadas, canchos e castinçais, enfrentando subidas e descidas que testavam a nossa força e determinação.
Nessas jornadas a sorte por vezes sorria-nos e, ocasionalmente, algum conhecido de carroça dava-nos boleia. Mas regra geral, eram as pernas que faziam o caminho e a paisagem serrana que nos animava.
No regresso não havia cansaço suficiente para nos tirar o sorriso da boca ou apagar a felicidade simples de quem trabalhava com dignidade e partilhava o pão
A falta de bens materiais nunca me fez sentir menor. Bem pelo contrário, a consciência de que o essencial era a comida na mesa, a roupa no corpo e os sapatos nos pés para os seis membros da família, tornou-me mais forte e resiliente.
Se os meus amigos se reuniam nas tascas para petiscar e beber aos domingos, eu encontrava prazer nos livros à sombra de um sobreiro ou dum cancho, cultivando sonhos e aprendendo com o mundo à minha volta.
As limitações da infância moldaram-me e ensinaram-me a aceitar a vida com o que ela oferece, sem invejar o vizinho nem guardar ressentimentos.
Não havia espaço para queixumes ou complexos de inferioridade.
Havia, pelo contrário, uma aceitação madura e serena da realidade e a busca constante da alegria nas pequenas coisas.
Tudo o que sou devo à estrutura moral dos meus pais, que nos transmitiram, sem saberem ler ou escrever, lições de integridade, honestidade e humildade.
Foram verdadeiros “licenciados” na Universidade da Vida.
Deles aprendi que a felicidade não depende do que possuímos, mas do que somos e do que partilhamos.
O reconhecimento e o respeito pela sua memória que ainda hoje sinto por parte de amigos e antigos vizinhos são a prova viva da dignidade com que a minha família viveu.
O orgulho de ser parte desta árvore tão sã transborda em mim, especialmente quando a saudade aperta e me obriga a recordar, a dizer e a escrever sobre eles.
Caminhar foi e continua a ser por isso mesmo para mim, mais do que um exercício físico.
Foi escola de vida, forjadora de caráter e fonte de alegria. Fez-me homem, ensinou-me a não temer distâncias, noites escuras ou caminhos desconhecidos.
Deu-me coragem para enfrentar desafios, fossem eles festas nas aldeias vizinhas, bailes, ou amores que moravam longe.
Hoje olho para trás com gratidão e orgulho, reconhecendo que, apesar de tantas dificuldades fui um rapaz feliz, e sou, até hoje, um homem satisfeito com o legado de princípios e afetos que recebi.
Procuro transmitir o mesmo aos meus filhos, perpetuando a herança de uma família pobre em posses, mas riquíssima em valores.
A minha história é uma homenagem a todos os que, como eu, aprenderam a caminhar pela força da necessidade e acabaram por fazer desse trajeto o caminho maior da sua vida.
Saber ser feliz com o que se tem, aceitar a simplicidade, valorizar o trabalho e a honestidade, são as maiores riquezas que qualquer um pode ambicionar.
José Coelho
Imagem:
Cercada pelo carinho de três dos seus quatro filhos e cinco dos seus sete netos, a nossa matriarca Florinda Lourenço no dia do seu 85º aniversário natalício.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

“Pedi e Recebereis”


A vida profissional, por vezes, desafia não apenas as nossas competências técnicas, mas principalmente os nossos valores e a nossa humanidade.
Foi em Nisa, há 35 anos, no exercício de funções de comando, que me deparei com uma dessas situações limite: a chefia direta de um superior cuja postura e comportamento criavam um clima tenso e muitas vezes insuportável.
Apesar de uma relação de amizade sincera e de uma colaboração profissional marcada pelo respeito mútuo e pela dedicação de todos, o ambiente era turvado pelo temperamento difícil e autoritário do referido superior.
Este não se limitava a ser duro na relação com os subordinados, estendendo esse comportamento à comunidade e até à própria família, situação que, na atualidade, não passaria impune perante a lei.
A cada dia, sentia-me mais dividido entre a amizade, o dever de lealdade institucional e a responsabilidade de proteger os direitos dos meus subordinados.
As suas queixas e uma censura silenciosa mas visível dos civis faziam-se sentir, colocando-me num dilema ético profundo: denunciar seria, para mim, inaceitável; ignorar, impossível. As tentativas de diálogo direto revelaram-se inúteis:
“Quem mandava era ele. Que não me preocupasse…”
Esta tensão, naturalmente, afetou-me ao ponto de recorrer ao meu médico de família, procurando alívio para o desconforto emocional e físico que se instalava. Ainda assim, a solução para tal dilema parecia escapar ao alcance da razão e da experiência.
Frente ao impasse, recorri ao que sempre foi para mim fonte de conforto e orientação: a fé. Num dia comum, sem planeamento, dirigi-me à igreja matriz de Nisa, em busca daquela paz que só o silêncio sagrado pode oferecer.
Cheguei no início de uma missa, onde crianças da catequese participavam ativamente.
Fui acolhido de imediato por uma amiga que me convidou a fazer uma das leituras. Aceitei talvez por hábito, talvez por sentir naquele gesto um convite maior. A participação na celebração, inesperada, encheu-me de uma sensação de acolhimento e de pertença.
Ser escolhido entre tantos, naquele momento, pareceu-me um sinal, uma resposta silenciosa à minha inquietação.
Durante o ofertório, duas a duas, as crianças aproximavam-se da assembleia: uma pedia a oferta, outra entregava, a cada pessoa uma tira de papel com uma mensagem escrita à mão.
Recebi a minha e ao ler as palavras nela inscritas “Nada temas. Eu estou contigo. Jesus Cristo” senti uma onda de serenidade e esperança.
Foi como se, naquele gesto simples e naquela frase, tivesse encontrado a resposta que procurava, a confirmação de que não estava sozinho perante os meus dilemas e como a fé, em momentos de tormenta, pode ser farol e abrigo.
Este episódio marcou-me profundamente.
Recordo que, muitas vezes, buscamos soluções em conselhos, estratégias ou racionalizações, esquecendo que há aspetos da vida humana que transcendem o entendimento e exigem confiança - uma confiança que, para quem crê, se fundamenta na certeza daquilo que Jesus Cristo disse aos Apóstolos: Pedi e recebereis.
A mensagem que a criança me entregou naquela igreja não resolveu de imediato os meus problemas, mas deu-me luz para continuar, coragem para não ceder ao desespero e serenidade para agir de acordo com os meus princípios.
Coincidência ou não, o assunto ficou resolvido, passado pouco tempo.
A vida fala-nos por vezes através de sinais simples. Cabe-nos estar atentos e de coração aberto, para os reconhecer e acolher. Que nunca nos falte a coragem para pedir, nem a humildade para receber.
José Coelho
(Texto e foto da tirinha de papel que guardo desde aquele dia).

A necessidade aguçava o engenho


Prezo muito as minhas raízes familiares de gente humilde do campo que mal ganhava para o sustento da família e por isso tinham de hortar o ano todo aquilo que se punha na mesa para as refeições.

E esta era a época da fartura.

Debaixo de telha cebolas, alhos, cachos de uvas ferrais, maçãs e melões, fiadas de pimentos vermelhos secos ao sol pendurados de paus e barrotes para se manterem secos e ventilados. E num sobrado preparado para o efeito, muitas arrobas de batatas, abóboras e feijão seco na vagem, conserva de tomate e massa de pimentão.

Na salgadeira e no fumeiro as carnes da matança anual do porco, galinhas e ovos com fartura, eram a base da nossa alimentação. Não sendo saudosista mas incapaz de esquecer tempos de tão profunda união familiar, vou imitando como posso esse arrecado outonal pese embora nos pingos doces, continentes e similares nada falte para comprar.

Mas não são as mesmas coisas porque nunca, jamais ou em tempo algum a produção massiva e industrial tem a qualidade e sabor destas já poucas coisas que ainda vamos adquirindo nos produtores locais e nos mercados semanais...

sábado, 27 de setembro de 2025

Até que Deus queira

Tinha apenas seis anos quando comecei a servir a igreja de Nossa Senhora do Carmo da Beirã. Estávamos em 1958 e era pároco o Reverendo Joaquim Caetano, já falecido. Foi ele quem me escolheu para seu acólito mal comecei a frequentar a escola e a catequese.

Ensinou-me princípios e transmitiu-me valores tais que a ele devo também muito do que sou, quer na minha formação como pessoa, quer no carácter e integridade. Por tudo isso guardo por ele até hoje uma amizade, respeito e consideração sem limites.

Porque a minha mãe não tinha posses para me comprar roupas finas para o acolitar, era ele quem comprava tecidos e mandava fazer-me as roupas domingueiras às costureiras que naquele tempo abundavam na aldeia.

Calções e calças de terylene, camisas de popelina, casacas e blusões quentinhos. E comprava-me também sapatos na fábrica Ebro de Santo António das Areias, a única que por aqui existia nesse tempo, pois só alguns anos mais tarde foi construída a Celtex.

Não haverá já por cá muita gente que se recorde destas coisas e as que houver se calhar não vão ler estas minhas memórias porque ou serão já muito velhinhas ou provavelmente nem saberão ler nem escrever.

Pese embora a minha força anímica esteja já muito mais debilitada, tenho continuado a colaborar em tudo o que posso e sei desde que vim morar definitivamente para a Beirã em 1 de Novembro de 1992 e imediatamente me "alistei", com a minha esposa, quer no coro paroquial, quer como leitor e salmista até 1999.

No ano 2000, 2001 e 2002, por indisponibilidade do então Conselho Económico Paroquial, foi-me solicitado pelos Revºs Párocos Tarcísio e Luís Ribeiro que tomasse temporariamente ao meu cuidado as contas da Paróquia cuja nomeação oficial só foi efetivada em 2003, a partir de quando integrei o Conselho Económico Paroquial por despacho de Sua Eminência o Bispo da Diocese para essas funções e mandatos sucessivos, até ao dia de hoje.

Tenho guardados em suporte informático e também em papel, todos os processos que justificam cada cêntimo de receita, cada cêntimo de despesa, semanais, mensais e anuais, desde 2000.

A contabilidade da igreja, das obras de restauro e conservação realizadas, dos donativos, da instalação do relógio digital e automatização dos sinos, da colocação das luzes LED, das despesas com vencimentos dos sacerdotes e todas as outras. Ao pormenor, limpinhas e fáceis de entender. Tudo pronto a entregar a quem de direito.

E mais.

Este cargo no CEP da Paróquia da Beirã, está, como sempre esteve, disponível todos os dias e a todas as horas, ao completo dispor de quem me escolheu e nomeou, prontíssimo a entregar a quem se oferecer para me substituir. É só chegar-se à frente quem o quiser e seja muito bem-vindo.

Sei que sempre cumpri as minhas obrigações com lealdade, dedicação, esforço e empenho. Sei também que nunca cobrei um cêntimo sequer por nada do que fiz. Ofereço, desde o já longínquo ano 2000 gratuitamente os meus serviços e tempo, o meu computador, tinteiros e resmas de papel da impressora, o combustível do automóvel nas deslocações ao banco, às reuniões a Portalegre, a São Tiago, a Mem Soares, a Nisa, a Castelo de Vide, a Marvão e a muitas outras localidades onde os párocos me solicitaram que fosse.

Sozinho, ou, quando muito, acompanhado apenas pela minha esposa, a qual, por sua vez, cuida ainda também gratuitamente do asseio e arrumação da igreja e dos altares em conjunto com outras duas senhoras, para além de passar horas a conferir, a separar e a acondicionar as moedas dos ofertórios que lhe são entregues por quem confere as oferendas no final de cada missa na igreja e das caixas, para posteriormente eu ir depositar no banco e na conta da paróquia que está sempre em dia.

Paguei ainda do meu bolso os cursos de ministro extraordinário da comunhão e da celebração da palavra na ausência do presbítero - MECDAP - o curso para aprofundamento da fé - CAF - que teve a duração de três anos letivos no Seminário de Portalegre, de muitas outras formações em Mem Soares, em Alcains, Abrantes e Proença-a-Nova. Deslocações, alimentação, combustíveis e pagamento individual de cada curso ou formação.

Com que intenção?

Única e exclusivamente formar-me minimamente para melhor conseguir colaborar em tudo o que me ia sendo proposto pelos párocos no serviço à comunidade paroquial a que pertenço.

É mais que verdade que "na sua terra ninguém é profeta". Muitas vezes me senti triste e desmotivado. Muitas vezes também me apeteceu mandar tudo às malvas. Mas a sempre reiterada confiança e sincera amizade dos párocos Tarcísio e Luís Ribeiro, aliadas à minha forte convicção de missão e de serviço a esta comunidade, conseguiram superar sempre a vontade de desistir.

Até quando?

Não sei. Até que Deus queira, provavelmente.

José Coelho - Texto e foto

Reflexões sobre a Vida


1. A dor não precisa de plateia
Chore no quarto mas sorria na sala, porque ninguém precisa de ver a sua dor para que ela seja real. A autenticidade dos sentimentos não exige testemunhas. É no silêncio da nossa intimidade que acolhemos as emoções mais profundas e nos permitimos seguir em frente sem a necessidade de validação externa.
2. O poder dos pensamentos e das palavras
Cuide dos seus pensamentos quando estiver sozinho e da sua língua quando estiver com os outros. O que sai da nossa boca pode edificar ou destruir. As palavras têm peso, por isso, usá-las com responsabilidade é uma demonstração de maturidade e respeito não só pelo próximo mas também por si mesmo.
3. O desapego das coisas materiais
Nascemos sem trazer nada e partiremos sem nada levar. Entre o início e o fim, muitas vezes gastamos tempo a discutir por coisas que nunca foram realmente nossas. A vida convida-nos ao desapego e à compreensão de que o valor está nas experiências, nos afetos e não nos bens materiais.
4. A fé não se exibe, pratica-se
Não adianta exibir a sua fé. Tratar bem as pessoas fala mais alto do que qualquer frase ou imagem. O testemunho verdadeiro está nas atitudes do quotidiano e não nas aparências construídas nas redes sociais. A bondade genuína é discreta e, ainda assim, é sentida por todos ao redor.
5. Essência revelada nas adversidades
É no divórcio que se conhece o caráter do cônjuge, na herança que se descobre o coração dos irmãos, na velhice que se revelam os verdadeiros filhos e nas dificuldades que se identificam os amigos. A vida é sobre essência, não sobre aparência; no fim, tudo se revela. Viva com coerência, porque quem é bom de verdade não precisa anunciar: faz-se notar no silêncio das atitudes.
Considerações Finais
O que vale não é o que se publica, mas o que se pratica. O que constrói não são as palavras, mas a forma como se vive. E o que permanece não é o que impressiona, mas o que transforma. Por isso, trabalhe, faça dinheiro, realize. Mas nunca deixe de lado o tempo, o cuidado e a presença para aquilo que o dinheiro não pode comprar. Porque tudo o que realmente importa não tem preço, tem valor.
Desconheço o autor

Foto José Coelho
* 27. 09. 2025

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O silêncio do pôr do sol

Pôr do sol na Lagem Alta - Beirã

O pôr do sol é, para mim, o instante mais especial de cada dia. Já escrevi sobre isso inúmeras vezes, mas nunca deixo de me surpreender com as cores inesperadas que, por breves minutos, iluminam as paisagens bucólicas da minha terra natal.

São momentos únicos e, ao mesmo tempo, inesquecíveis.

algo de profundamente intrigante na forma como a natureza se silencia nos instantes que antecedem o desaparecimento do sol atrás da linha do horizonte. Esse fenómeno repete-se todos os dias e, mesmo assim, continua a ser surpreendente.

O mais fascinante é que as cores do ocaso mudam a cada dia, oferecendo sempre uma nova paleta àqueles que se dispõem a observar.

Hoje, sentados na varanda eu e a minha companheira, fomos surpreendidos por uma quietude absoluta. Nem os pássaros se ouviam e a ausência de qualquer som parecia tornar o momento ainda mais solene.

“Que sossego, Zé! Nem os pássaros se ouvem!”

Não pude deixar de concordar, partilhando do seu espanto antes de nos entregarmos, ambos, ao silêncio.

A luz do sol tomou um tom fortemente alaranjado, como se os canchos e o montado distantes fossem iluminados por holofotes, tal como acontece com as muralhas de Marvão à noite.

Lentamente essa luz foi-se extinguindo, à medida que o astro-rei ia desaparecendo atrás da serra da Penha de Castelo de Vide. Nem um sopro de brisa, nem um pio de ave; a tranquilidade era total.

Logo depois, a barra cinzento-escura da noite começou a avançar, cobrindo a paisagem que minutos antes brilhava sob o sol.

Não resisto a acreditar que este é o momento do dia em que Deus desce à terra e que, por isso, toda a Sua criação se cala em profundo respeito. A paz que me invade nesses instantes é tão doce que fecho os olhos e agradeço pela vida, pela família, pelos amigos, pela saúde e por cada dia vivido.

É nesses momentos de comunhão com a natureza que a oração me surge de forma mais natural, mais até do que dentro da igreja, rodeado pela assembleia.

Se nunca prestaram atenção a este fenómeno, convido-vos: subam a um outeiro, escolham um lugar tranquilo e esperem pelo pôr do sol. Até sentados na muralha de Marvão, ou mesmo no vosso quintal, como faço no meu, poderão experimentar esse silêncio intrigante.

Aposto que irão surpreender-se com a quietude que, por instantes, envolve tudo em redor.

É um momento efémero, apenas o tempo necessário para o sol tocar a linha do horizonte e desaparecer por completo. Tão surpreendente que parece não nos atrevermos sequer a respirar para não perturbar a paz que nos envolve.

A vida, a natureza e o mundo, são maravilhosos, ainda que muitas vezes não lhes prestemos atenção suficiente. Às vezes olhamos, mas não vemos. Acredito que esses momentos são uma dádiva do Criador, uma oportunidade de sentir a Sua presença todos os dias.

Contudo, respeito quem pensa de forma diferente, porque cada um sabe de si.

Desejo-vos um excelente fim de semana, repleto de momentos de paz e comunhão com a natureza.

José Coelho Texto e foto

Ó minha alma, louva o Senhor

SALMO RESPONSORIAL DO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Bom fim de semana

Não desistas do amor.
Desiste de pessoas confusas, de quem não sabe o que quer, de quem não valoriza o teu afeto, de quem não vê a pessoa que és.
Não desistas do amor.
Desiste de tentar mergulhar em pessoas rasas, de quem vive de aparências, de quem não tem capacidade para entender a tua dedicação.
Não desistas do amor.
Desiste de dar mais oportunidades a quem já mostrou várias vezes que não é a pessoa certa para ti, de insistir em portas que não se abrem, de te negares a ver quem o outro mostra ser.
Não desistas do amor.
Desiste de quem te magoa, de quem te tira a tua paz e ameaça o teu equilíbrio emocional.
Mas não desistas do amor.
Porque o amor de verdade é a força que move a nossa existência, é a energia que dá mais sentido à vida, é o sentimento que une dois seres para os juntar na sua caminhada a dois.
É por isso que do amor nunca se desiste. Ele pertence-nos. A gente desiste é das pessoas que tentam afastar-nos dele.
A. Gruber

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Testemunho de um Ex-Combatente sobre o Acréscimo Vitalício de Pensão


O presente documento reflete o testemunho sincero de um ex-combatente português sobre o Acréscimo Vitalício de Pensão, uma medida promovida por Paulo Portas e dirigida aos poucos sobreviventes da guerra colonial e suas viúvas.
Este texto pretende revelar não só o percurso de um combatente, mas também a desilusão e indignação sentidas perante o valor atribuído pelo Estado como reconhecimento pelo seu esforço e de quantos por lá combateram.
Aquando do anúncio do Acréscimo Vitalício de Pensão, muitos ex-combatentes e cidadãos celebraram. Finalmente, alguém reconhecia o sacrifício dos homens enviados para lugares remotos, enfrentando perigos e privações de toda a espécie, em nome da Pátria.
O sentimento era de gratidão, expressa por palmadinhas nas costas e palavras de apreço: “Assim é que é!”.
No entanto, a realidade revelou-se bastante diferente das expectativas. O subsídio prometido que deveria reforçar significativamente as pensões dos ex-combatentes, acabou por ser, para muitos, uma quantia irrisória.
No caso do autor deste testemunho, o valor mensal atribuído foi de apenas 7,79 €, totalizando, numa entrega anual concentrada em outubro, uns modestos 109,08 €.
A justificação oficial para esta forma de pagamento acumulado pareceu ser a vergonha do montante decidido, tornando-o menos visível e, talvez, menos alvo de críticas.
O ex-combatente relata ter sido incorporado em Elvas no BC8, adquirindo a seguir à recruta especialização em transmissões. Após 10 meses de formação, foi mobilizado para Angola, chegando ao Belize, no coração da floresta de Maiombe, Enclave de Cabinda, numa fase muito crítica do conflito armado.
A duração do serviço foi de 2 anos, 3 meses e 7 dias, bonificada legalmente no dobro do tempo por se tratar de uma zona 100% em guerra, totalizando 5 anos, 5 meses e 19 dias.
Apesar das numerosas perdas entre camaradas, o autor reconhece a sorte de ter regressado a casa em junho de 1974. Muitos dos seus companheiros ficaram para sempre em Angola e o sentimento de partilha desses tempos difíceis permanece presente no espírito de cada ex-combatente.
Para além da modéstia do valor, o acréscimo anual de 109,08 € teve ainda um efeito perverso: o aumento da taxa de desconto para o IRS no mês de outubro que passa de 20,9% para 22,4%, resulta no aumento de 53 € nos respetivos descontos.
Assim, feito o balanço, o ex-combatente recebe, efetivamente apenas 56,08 €, ou seja, cerca de 4 € por mês de Acréscimo Vitalício de Pensão.
O autor compara a sua situação à de antigos presidentes e membros do governo que acumulam várias pensões e subsídios confortáveis, enquanto os veteranos de guerra recebem uma quantia ridícula.
Critica a falta de justiça e de reconhecimento, considerando que o tratamento dado aos ex-combatentes é uma afronta e apenas uma forma de “tapar o sol com a peneira”.
Expressa também a dúvida sobre se os governantes descontam para o IRS metade dos seus inúmeros “subsidiozões”, como acontece ao diminuto “subsidozinho” dos ex-combatentes.
O sentimento de desilusão e revolta é evidente, culminando com a afirmação de que, pela parte que lhe toca, preferia que o seu Acréscimo Vitalício de Pensão fosse “metido nos ditos-cujos” dos responsáveis pela sua criação, tal o desprezo pelo valor atribuído.
O testemunho ora apresentado, para além de retratar uma duríssima experiência pessoal de serviço militar em contexto de guerra, expõe a falta de reconhecimento efetivo por parte do Estado português aos seus ex-combatentes.
A discrepância entre as promessas políticas e a realidade dos valores atribuídos revela não só uma falha institucional, mas também perpetua o sentimento de injustiça entre aqueles que tanto deram pela Pátria.
Este relato é um apelo à reflexão e à necessidade de valorizar, de forma justa e digna, os que sacrificaram parte da sua vida ao serviço do país.
O Acréscimo Vitalício de Pensão, tal como está implementado, representa para muitos apenas mais uma desilusão entre tantas outras, na história dos ex-combatentes portugueses.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Cuidar é valorizar


"Foi o tempo que tu dedicaste à tua rosa
que a tornou tão importante"
Antoine de Saint-Exupéry

Foto José Coelho