terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Memórias e amizades que permanecem

Guardo com nostalgia as memórias de comandante do posto de Nisa, uma experiência a todos os níveis muitíssimo gratificante, porque marcada por grandes desafios e conquistas, mas sobretudo por laços de amizade e respeito forjados no seio da excelente equipa que compunha o seu efetivo.
Quando iniciei funções deparei-me com uma rotina inalterada e pouco eficaz perante as necessidades da zona: escalas previsíveis, patrulhamentos repetitivos e uma sensação de impunidade que favoreciam a ação dos malfeitores. Até a própria vizinhança conhecia os horários das patrulhas, o que desvirtuava o propósito do policiamento preventivo.
Durante os primeiros meses dediquei-me a conhecer a fundo a imensa área sob a nossa responsabilidade, desde as povoações densamente habitadas aos recantos mais remotos. Só assim pude identificar os pontos mais vulneráveis e calibrar a presença policial conforme as reais necessidades.
O estudo rigoroso das acessibilidades, sobretudo as ligações à Beira Baixa e aos postos limítrofes, revelou-se crucial para antecipar e quando possível interceptar, os movimentos dos grupos de larápios, cuja origem muitas vezes era externa à região.
Os trilhos esquecidos pelo tempo e pela fiscalização serviam de rota aos furtos que se repetiam. Não raras vezes identificávamos os mesmos rastos em diferentes ocorrências, mas, ao chegarem às estradas principais, os autores desapareciam aproveitando a densa mancha florestal e os múltiplos caminhos que a zona oferece, permitindo-lhes chegar rapidamente a Espanha, Portalegre, Elvas, Estremoz, Abrantes ou Ponte de Sor, entre outros destinos.
Quando considerei ter mapeado os pontos nevrálgicos, avancei para uma profunda reformulação dos patrulhamentos. Otimizei os meios disponíveis alternando entre patrulhas a cavalo, apeadas, motorizadas e auto, garantindo uma cobertura flexível e imprevisível. A minha participação era constante integrando o policiamento diurno e noturno, lado a lado com os colegas, após as tarefas administrativas.
Partilhei todo o conhecimento adquirido ao longo da carreira, mas privilegiei, acima de tudo, um ambiente de confiança e mútua responsabilidade. Incentivei a autonomia e a proatividade, sempre com o rigor legal como referência. Repetia frequentemente: “Na dúvida, não se faz. Mas, perante um ilícito evidente, ninguém deve hesitar em agir nem temer pedir apoio, se necessário.”
A valorização individual e o estímulo à autoestima foram pilares do meu método de liderança, assente no reconhecimento e no respeito da condição humana dos militares.
Nunca exigi deles aquilo que não estivesse disposto a fazer também; nunca mandei ninguém para o frio ou para o calor sem estar com eles presente no terreno. Liderar pelo exemplo foi sempre a minha regra de ouro, mesmo quando isso implicava sacrifícios pessoais, como as ausências frequentes à mesa familiar, recordadas com ternura e alguma nostalgia pela minha esposa.
O esforço coletivo rapidamente se refletiu numa redução significativa da criminalidade, na recuperação de bens e no restabelecimento do sentimento de segurança junto das populações. A imprevisibilidade dos patrulhamentos tornou-se uma marca da nossa ação: podíamos aparecer sem aviso em qualquer ponto da vasta área, a qualquer hora do dia ou da noite.
A flexibilidade tática permitiu-nos adaptar o efetivo e os meios às circunstâncias, tornando o serviço mais eficaz e o trabalho mais motivador. O espírito de equipa consolidou-se, criando laços que perduraram bem para lá do tempo de serviço conjunto.
Se há algo que guardo com maior orgulho desses oito anos de comando é a amizade sincera e o respeito que se mantêm, décadas depois, com muitos daqueles mais de trinta profissionais que tive o privilégio de liderar. São relações que o tempo não apaga, feitas na confiança, na entreajuda e reconhecimento mútuos.
Hoje ao recordar esses momentos sinto que todo esse esforço foi bem empregue. Agradeço a cada um dos homens que partilharam esse percurso comigo, certos de que o laço construído permanece vivo, alimentado pela amizade, pela gratidão e pela memória de um tempo em que, juntos, fizemos a diferença.
Foto Nisa 1986