quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A monumental hipocrisia no trato dos idosos

A sociedade portuguesa e europeia orgulham-se frequentemente do seu compromisso com a proteção dos idosos, sobretudo em momentos de crise, como se viu durante a pandemia de COVID-19. Campanhas de vacinação em massa e discursos oficiais sublinhavam a necessidade de defender os mais vulneráveis. No entanto, por trás desta fachada de cuidado, esconde-se a realidade marcada por uma sistémica negligência de aspetos fundamentais:
- Rendimentos dignos, condições de habitação adequadas, acesso efetivo à saúde e combate ao isolamento social.
Este texto propõe uma análise crítica à hipocrisia presente no tratamento social dos idosos, destacando a contradição entre intenções públicas e práticas concretas, defendendo a urgência de políticas estruturais que garantam uma vida digna para todos.
Durante a pandemia os seniores foram de facto alvo de campanhas intensivas de vacinação e de medidas públicas que visavam a sua proteção sanitária. O discurso dominante colocava-os no centro das preocupações, justificando restrições e esforços extraordinários em nome da sua segurança.
Contudo esta atenção revelou-se, em grande parte, circunstancial e limitada ao contexto pandémico, ignorando outras dimensões essenciais do seu bem-estar. O foco na saúde pública, embora importante, funcionou como um paliativo que encobriu problemas estruturais e perpetuou a ideia de que proteger idosos se resume a uma questão de imunização.
A realidade económica em Portugal e em muitos países europeus é marcada por pensões insuficientes, reformas que mal permitem a subsistência e um risco elevado de pobreza. Segundo dados recentes, uma significativa percentagem vive abaixo do limiar da pobreza, enfrentando dificuldades para pagar despesas básicas como alimentação, medicamentos e habitação.
Essa vulnerabilidade económica contrasta de forma gritante com os discursos oficiais de proteção, que revelam hipocrisia institucional e perpetuam não só a exclusão social como também a insegurança financeira dos mais velhos.
O isolamento social é um dos seus grandes flagelos, agravado pela pandemia e pela insuficiência de políticas de apoio comunitário. Muitos vivem sozinhos sem familiares próximos ou redes de suporte, o que contribui para o aparecimento de problemas de saúde mental, depressão e perda de autonomia.
As respostas institucionais, quando existem, são frequentemente fragmentadas e insuficientes, deixando milhares de pessoas à margem de uma vida social plena e integrada.
O acesso à saúde constitui outro desafio fundamental. Apesar da existência de sistemas públicos, persistem barreiras como listas de espera intermináveis, falta de médicos de família e uma resposta insuficiente para as suas necessidades específicas.
O resultado são diagnósticos tardios, tratamentos incompletos e um sentimento de abandono que compromete não apenas a saúde física, mas também o bem-estar emocional dos séniores. E mais uma vez, a retórica da proteção não se traduz em práticas efetivas e universais.
A análise das políticas sociais revela uma discrepância profunda entre as intenções proclamadas e as ações concretas. Campanhas mediáticas e medidas pontuais contrastam com a ausência de reformas estruturais que poderiam garantir rendimentos dignos, habitação adequada, acesso integral à saúde e inclusão social.
Esta hipocrisia institucional perpetua a ideia de que o cuidado aos idosos é uma prioridade, quando na prática são relegados para segundo plano, sobretudo fora dos ciclos de crise mediática. Para superar este paradoxo é necessário implementar políticas públicas estruturais e integradas que transcendam as respostas de emergência e promovam o bem-estar sénior de forma contínua e sustentável.
Entre essas propostas destacam-se o reforço das pensões e apoios sociais, o investimento em habitação acessível e adaptada, a garantia de acesso equitativo à saúde e o desenvolvimento de redes comunitárias de apoio que combatam o isolamento. Sem uma abordagem sistémica e persistente continuaremos a assistir ao ciclo vicioso da hipocrisia social.
A dignidade dos idosos exige muito mais do que campanhas pontuais e discursos bem-intencionados. É urgente que a sociedade portuguesa e europeia enfrentem a hipocrisia das políticas sociais, reconheçam as suas falhas e assumam o compromisso de promover reformas que garantam uma vida digna a todos os séniores.
O apelo à ação não se destina apenas aos decisores políticos, mas a toda a comunidade, que deve exigir e construir um futuro onde envelhecer seja sinónimo de respeito, segurança e inclusão.