Boa noite, velho amigo. Não penses que por me teres deixado há já alguns anos me esqueço de ti. Pelo contrário, quanto mais o tempo passa, mais sinto a tua falta e mais me revejo em ti. De manhã a cortar a barba é a tua cara chapada que o espelho me devolve. Às vezes comento até em voz alta ‘no nósse falar marvanês’:
– Zéi tás igualinho ó ti‘Tónho Coelho...
Sou-te infinitamente grato por tudo o que contigo aprendi. Éramos unha e carne. Sempre fomos. Recordo a felicidade que senti, gaiato com apenas 13 anos, quando me tiraste daquela lonjura do Monte dos Pavios do tio José Bonacho onde andava a guardar vacas e de onde só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Levaste-me a trabalhar contigo para a pedreira da Lagem do Sapato e ali recomeçou o nosso companheirismo de sempre.
Depois foi a vez de irmos para a Portagem abrir o enorme buraco no leito do rio Sever para construírem a grande piscina fluvial que ainda hoje lá está. Saíamos juntos de madrugada, regressávamos lusco-fusco a pé, percorrendo caminhos e "atravessos".
Mais tarde rumámos a Campo Maior, sempre ao serviço do engenheiro Ventura, para quem foste subempreiteiro tantos anos. Éramos inseparáveis, exceto numa coisa: aos sábados, no regresso a casa, preferias ir com os camaradas da tua idade beber o vosso copinho.
Gaiato ainda e porque nunca fui de vinho nem de tabernas, ficava no banco de trás da camioneta, sozinho, à espera que vocês "molhassem o bico", o que muitas vezes demorava uma ou duas horas.
Se calhar o vinho tinha espinhas e por isso vos empatava tanto!
Nunca esquecerei também a tua cumplicidade quando enfrentaste a teimosa relutância da mãe. Ela não queria que eu fosse voluntário para a tropa com medo que lá morresse, mas tu, percebendo a minha vontade de mudar de vida, não hesitaste em me acompanhar à Câmara de Marvão para assinares com o dedo untado de tinta preta, a autorização necessária.
Que força e compreensão!
As saudades de conversar contigo são inexplicáveis. Hoje com o tempo chuvoso, sentei-me no sofá à lareira e inesperadamente lembrei-me daquele dia em que, sentado no mesmo sítio e tu já bastante debilitado a preparares-te para partir, vieste sentar-te ao meu lado, puseste a tua mão sobre o meu joelho e disseste:
– Isto está mal, filho. Os remédios já não me fazem nada! Venho pedir-te uma coisa, filho. Não deixes que me levem para o hospital para morrer lá sozinho no meio de estranhos numa maca, nalgum corredor. Deixa-me ficar aqui em casa e morrer na minha cama ao pé de vocês.
Tu sabias que o teu fim estava próximo. E eu também. Todas as manhãs, antes de sair para Portalegre, ia dar-te um beijinho temendo que partisses antes de eu voltar. Mas esperaste por mim dia após dia, até à madrugada de 23 de janeiro de 1994.
Sentado no sofá vigiava a tua agonia noite após noite até às duas da manhã, para a Mãe Florinda dormir e descansar um bocadinho. Depois trocávamos de lugar, mas naquela noite, mal tinha pousado a cabeça na almofada quando ela me chamou, chorosa:
– Levanta-te filho, o pai já faleceu.
Foi um dos momentos mais dramáticos da minha vida, santo pai. Não esqueço a dor, o abraço, o fechar-te os olhos. Nesse dia perdi o meu maior amigo e metade do meu coração. Nunca mais fui o mesmo, porque ninguém te substitui. Amo os meus filhos e netas, teus netos e bisnetas, mas o amor e gratidão por ti caminharão comigo até ao fim.
Hoje, precisava escrever-te esta carta – como outras que já escrevi e apaguei – mas esta fica. Não tenho de sentir vergonha por ter saudades tuas, meu querido e velho amigo. Voltaremos a encontrar-nos, assim o creio. Um beijo onde estejas, do filho que nunca te esquece e continua a amar-te como se estivesses ainda aqui.
