Gosto de partilhar convosco o meu sentimento de nostalgia e de perda, esta dor silenciosa que me acompanha sempre, pelas mudanças irreparáveis de tudo o que era, mas já não é.
Crescemos com a ilusão de que o mundo à nossa volta é imutável, que os rostos, os sons e os lugares vão permanecer exatamente como os recordamos.
As lojas da aldeia, a taberna, a alfaiataria, a barbearia… Cada uma dessas referências era parte do tecido social e emocional que dava cor aos dias. Eram mais do que meros estabelecimentos; eram pontos de encontro, palco de conversas, de celebrações e até de pequenas disputas.
A ausência desses espaços e das pessoas que lhes davam vida, deixa um vazio difícil de preencher.
Sentir falta do bulício, do murmúrio das vozes conhecidas, do cheiro familiar do pão quente ou do som das gargalhadas vindas da rua, é natural. Carregamos conosco essas memórias como preciosos tesouros, conscientes de que são elas que nos ancoram e nos dão identidade.
Apesar da dor de ver partir pessoas e tradições, há um consolo silencioso em saber que, ao fechar os olhos, tudo isso permanece vivo dentro de nós.
Aprender a viver com as ausências é, em si, um processo de amadurecimento. Por vezes custa aceitar que não é possível manter os usos e costumes que outrora deram sentido à nossa infância e adolescência.
No entanto, cada memória guarda a promessa de eternidade: enquanto recordarmos a loja e taberna da ti Zabel no Largo da Fonte, a da ti Árora na Rua da Igreja, a alfaiataria do senhor Barradinhas e a barbearia do senhor Rabaça no palacete do senhor Graça, ou a casa da mestra senhora Vicência Olivença, na Rua Barcelos Maia, eles continuam a existir.
Não nos espaços físicos da aldeia, mas nas nossas lembranças e histórias partilhadas.
Assim preservamos uma parte desse mundo antigo, transmitindo-o através de palavras, silêncios e olhares. E, de certa forma, ao mantermos vivas essas memórias, damos continuidade a tudo aquilo que parecia perdido.
Porque, no fim, as memórias são só nossas – e no nosso coração tudo isso vive para sempre.
José Coelho
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