sábado, 20 de dezembro de 2025

Antes que o tempo se escape


Vivemos numa era em que quase tudo parece estar ao alcance das nossas mãos: casas confortáveis, tecnologia avançada, fotografias e filtros que embelezam momentos, mas falta o essencial.

Partilhar afetos.

As famílias de hoje têm tudo, menos tempo.

Falta-lhes a presença dos entes queridos, o cheiro da comida caseira, o som das vozes amadas, o abraço que não precisa ser pedido.

Os jovens comunicam-se quase exclusivamente através de mensagens instantâneas e os mais idosos falam para quem não os escuta, aguardando chamadas de longe que raramente chegam.

E assim a distância cresce silenciosa, entre gerações.

Recordo o tempo em que família era sinónimo de partilha, em que cabia sempre mais um na mesa mesmo que a casa fosse pequena, em que o amor não era exibido em fotografias e se vivia nos gestos diários, nos olhares sinceros, no carinho genuíno.

Na época em que cresci as distrações tecnológicas não existiam. Conversava-se, trocavam-se ideias, discutia-se e apesar dos conflitos domésticos, sentia-se a fraternidade. Havia comunicação verdadeira, laços fortes e a certeza de que, perante qualquer desafio, a família era refúgio certo e seguro.

Atualmente o amor tornou-se descartável e a família uma lembrança nostálgica. Os idosos ficam sozinhos arrastando os dias até já não poderem mais, sendo depois encaminhados para lares onde a presença familiar se dilui por falta de tempo motivada pelas obrigações quotidianas e se transforma em longos e desconfortáveis silêncios.

Nas casas modernas acumulam-se os ecrãs de todos os tamanhos, mas escasseiam os encontros genuínos. Os mais novos substituem os abraços por notificações digitais enquanto os mais velhos olham desiludidos para o telefone à espera de um sinal que raramente chega.

Assim os laços familiares se vão desfazendo lentamente sem grandes alardes, até o silêncio se tornar mais pesado do que qualquer barulho.

Apesar de ser já quase impossível, continuo a preferir a casa e a mesa cheias, porque não são as novas tecnologias que criam barreiras à fraternidade, à família e ao amor. É o abandono, esse contagioso mal do tempo de agora que se propaga sem se ouvir, destrói memórias e esvazia lares.

O verdadeiro obstáculo é a ausência consciente de afetos, a falta de dedicação e de convívio.

Ainda era tempo de resgatar as nossas tradições, de desligar os telemóveis durante as refeições, de ouvir com atenção quem está ao nosso lado, de ensinar aos mais novos o valor de um abraço, de mostrar que pertença é muito mais do que partilhar a internet mas partilhar sim a vida, as histórias e os sentimentos comuns.

Família não é apenas uma palavra; é a mesa cheia, o barulho das conversas, o espaço onde cabe sempre mais um. Urge valorizar o que realmente importa, recuperar a presença e proximidade das famílias, antes que o tempo – esse bem cada vez mais escasso – se escape.

Bom Natal 2025

José Coelho c/ Maria Coelho