Vivemos numa era em que quase tudo parece estar ao alcance
das nossas mãos: casas confortáveis, tecnologia avançada, fotografias e filtros
que embelezam momentos, mas falta o essencial.
Partilhar afetos.
As famílias de hoje têm tudo, menos tempo.
Falta-lhes a presença dos entes queridos, o cheiro da comida
caseira, o som das vozes amadas, o abraço que não precisa ser pedido.
Os jovens comunicam-se quase exclusivamente através de
mensagens instantâneas e os mais idosos falam para quem não os escuta,
aguardando chamadas de longe que raramente chegam.
E assim a distância cresce silenciosa, entre gerações.
Recordo o tempo em que família era sinónimo de partilha, em
que cabia sempre mais um na mesa mesmo que a casa fosse pequena, em que o amor
não era exibido em fotografias e se vivia nos gestos diários, nos olhares
sinceros, no carinho genuíno.
Na época em que cresci as distrações tecnológicas não
existiam. Conversava-se, trocavam-se ideias, discutia-se e apesar dos conflitos
domésticos, sentia-se a fraternidade. Havia comunicação verdadeira, laços
fortes e a certeza de que, perante qualquer desafio, a família era refúgio
certo e seguro.
Atualmente o amor tornou-se descartável e a família uma
lembrança nostálgica. Os idosos ficam sozinhos arrastando os dias até já não
poderem mais, sendo depois encaminhados para lares onde a presença familiar se
dilui por falta de tempo motivada pelas obrigações quotidianas e se transforma
em longos e desconfortáveis silêncios.
Nas casas modernas acumulam-se os ecrãs de todos os tamanhos,
mas escasseiam os encontros genuínos. Os mais novos substituem os abraços por
notificações digitais enquanto os mais velhos olham desiludidos para o telefone
à espera de um sinal que raramente chega.
Assim os laços familiares se vão desfazendo lentamente sem
grandes alardes, até o silêncio se tornar mais pesado do que qualquer barulho.
Apesar de ser já quase impossível, continuo a preferir a casa
e a mesa cheias, porque não são as novas tecnologias que criam barreiras à
fraternidade, à família e ao amor. É o abandono, esse contagioso mal do tempo
de agora que se propaga sem se ouvir, destrói memórias e esvazia lares.
O verdadeiro obstáculo é a ausência consciente de afetos, a
falta de dedicação e de convívio.
Ainda era tempo de resgatar as nossas tradições, de desligar
os telemóveis durante as refeições, de ouvir com atenção quem está ao nosso
lado, de ensinar aos mais novos o valor de um abraço, de mostrar que pertença é
muito mais do que partilhar a internet mas partilhar sim a vida, as histórias e
os sentimentos comuns.
Família não é apenas uma palavra; é a mesa cheia, o barulho
das conversas, o espaço onde cabe sempre mais um. Urge valorizar o que
realmente importa, recuperar a presença e proximidade das famílias, antes que o
tempo – esse bem cada vez mais escasso – se escape.
Bom Natal 2025
José Coelho c/ Maria Coelho
