terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Excelente reflexão para esta quadra festiva


Entre ser cristão e ser contra os imigrantes não há um debate político, há uma incoerência espiritual.

Não se trata de ser de esquerda ou de direita.
Trata-se de ser cristão.
O cristianismo não nasce do medo, mas do encontro. Não cresce da exclusão, mas do acolhimento. Não se sustenta no “nós” contra “eles”, mas no “tu” que se torna irmão.
Jesus não perguntou de onde vinhas. Perguntou apenas se tinhas fome. Não quis saber a tua nacionalidade, apenas se precisavas de água, de abrigo, de cuidado.
“Era estrangeiro e acolhestes-Me.” Não como metáfora. Não como poesia distante. Mas como critério de julgamento da própria fé. Há quem invoque a segurança, a economia, a identidade. Há receios legítimos, perguntas necessárias, equilíbrios a cuidar.Mas o Evangelho não nos autoriza a fechar o coração antes de abrirmos a consciência.
Portugal envelhece. Os sistemas cansam-se. A esperança precisa de braços novos. E muitos dos que chegam não vêm para tirar, vêm para trabalhar, contribuir, cuidar, construir futuro.
Acolher não é ingenuidade. É responsabilidade. É visão de bem comum. É perceber que a dignidade humana não tem fronteiras nem vistos.
Quando um cristão rejeita o estrangeiro, não está apenas a tomar uma posição social, está a afastar-se do centro da sua própria fé.
Ser cristão é escolher o amor quando o medo grita. É optar pela compaixão quando a indiferença parece mais cómoda.
É transformar a hospitalidade em testemunho.
Não acolhemos porque é fácil.
Acolhemos porque é cristão.
E talvez seja aí, nesse gesto simples e exigente, que o Evangelho volta a ganhar carne, rosto e futuro.

Padre João Torres
* 30. 12. 2025