Não sou de muitas conversas. Em mim ecoa o silêncio sereno do meu pai, homem de poucas palavras, mas de muita presença. Cresci numa família modesta, envolta nas agruras partilhadas por quase todos na minha aldeia rural. A nossa vida era marcada pelo trabalho árduo, pelas madrugadas frias e pelos regressos noturnos à luz trémula de um candeeiro a petróleo, onde uma sopa caseira aquecia o corpo e reunia os nossos à volta da mesa.
Desde cedo, encontrei nas letras o meu refúgio. Nunca fui sozinho, pois um livro sempre me acompanhou no bornal, tornando-se o companheiro fiel nas horas de descanso. Ler tornou-se um vício saudável, uma paixão que me levou a devorar milhares de páginas ao longo dos anos. Hoje, enquanto saboreio "A história de um canalha" de Júlia Navarro, recordo que, apesar de evitar multidões e festas, nunca me senti isolado: um bom livro é, afinal, companhia maior do que se possa imaginar. Entrar nas histórias, viver outras vidas, sentir outras emoções, tudo isso me preencheu, muitas vezes mais do que a própria realidade.
Embora não seja solitário, aprecio profundamente a solidão voluntária. Sinto-a ao caminhar pelos campos da minha freguesia, ao ouvir o sussurrar da água dos regatos, ao sentar-me num cancho a contemplar horizontes, ou ao seguir as margens dos nossos ribeiros. Estes lugares, percorridos desde a infância, guardam ecos de tempos em que a aldeia era viva de crianças nas ruas, de vozes animadas, de casas cheias e do cheiro dos jantares a lenha.
Com o passar dos anos, a companhia mudou. Agora, caminho quase sempre ao lado da minha mulher, pois a idade recomenda prudência diante dos matos crescidos e dos silêncios cada vez mais profundos. Os trilhos que antes eram povoados, hoje são cenário de encontros fugazes com animais selvagens e um silêncio que ensurdece, tão denso que chega a doer.
Amo profundamente esta terra. Reconstruí aqui a casa onde nasci, crente de que seria o meu eterno refúgio. Contudo, a dor do regresso, depois de ausências breves, tornou-se um fardo. O que era alegria e pertença tornou-se tristeza e nostalgia. O silêncio, antes exclusivo dos campos, invadiu a aldeia e parece abafar tudo: as memórias, as esperanças, até a própria vontade de permanecer.
Hoje, encontro-me perante uma encruzilhada. Rendo-me ao tempo e resigno-me, esperando pelo inevitável? Ou escuto a razão, procuro outros lugares, outras gentes, em busca do que resta dos meus dias? O coração, porém, resiste: como deixar o lugar onde estão as minhas raízes, as minhas histórias, aquilo que me fez quem sou?
O tempo passa, monótono. Os livros, outrora tão vivos, já não aconchegam como antes. Falta-me não apenas a paz dos campos, mas o bulício da aldeia de outrora as luzes nas janelas, as vozes, os risos, o aroma a vida e o convívio. Percebo, finalmente, que o que me faz falta são as pessoas, a comunidade, os laços.
E honestamente reconheço: já não sou feliz aqui.
No fundo, há uma saudade funda, não só do passado, mas do próprio sentido de pertença e de alegria que um dia encontrei neste lugar. Fica por resolver a dúvida, entre o apego e a coragem de partir, entre o passado que já não existe e o futuro incerto. Talvez, como diria um poeta, “a maior viagem seja sempre para dentro de nós mesmos”.
