sábado, 6 de dezembro de 2025

O Tempo, a Humanidade e a perda de sentido do Natal


Cada regresso de dezembro convida-nos a contemplar o tempo que passa, invariavelmente, por entre os nossos dias e sonhos. É um lembrete silencioso de que a vida não espera por projetos adiados, nem se detém por arrependimentos tardios. Tal como referido, raramente vivemos cada dia como se fosse o último e preferimos adiar, acreditando ingenuamente que haverá sempre um amanhã para realizar aquilo que deixámos para depois.

Esse “depois” revela-se tantas vezes um lugar de saudade amarga, onde ecoam pensamentos como “Ah, se fosse agora eu já não fazia assim” ou “Se eu soubesse o que sei hoje”. Chegamos a olhar para trás por vezes com nostalgia e uma certa dose de arrependimento, pelas oportunidades perdidas e pelo bem que poderíamos ter feito mas não fizemos.

Há uma tendência generalizada de não valorizarmos com serenidade as bênçãos e maravilhas que nos rodeiam. Somos mestres em complicar, em vez de apreciar, a simplicidade de estar vivo. Tal comportamento não é exclusivo de alguns, mas sim um traço assumido pela humanidade. O exemplo mais gritante reside no modo como tratamos o planeta: poluímos, exploramos e ignoramos as consequências, habituados à comodidade do “se para hoje há, para amanhã Deus dará”.

Os efeitos dessa negligência estão à vista. As catástrofes ambientais multiplicam-se, com impactos cada vez mais severos e imprevisíveis. Questionamo-nos: poderia ter sido evitado? A resposta é dolorosamente afirmativa. Mas a inércia e o hábito de adiar ações essenciais têm um preço elevado.

Não somos apenas maus hóspedes da Terra, mas também uns dos outros. As guerras proliferam espalhando morte, sofrimento e destruição. O drama dos refugiados, das crianças sem esperança é facilmente relegado para o fundo da nossa consciência "porque é lá longe”. A distância geográfica transforma-se em distância emocional, permitindo-nos virar o rosto ao sofrimento alheio. 

O princípio basilar – não fazer ao outro o que não queremos para nós – é frequentemente desvalorizado, acusado de pieguice ou moralismo vazio. No entanto, ignorar esse ensinamento perpetua injustiças e alimenta a hipocrisia social.

Enquanto a dor e as injustiças persistem, dezembro transforma-se, cada vez mais cedo, num espetáculo de consumismo desenfreado. A partir do início de novembro surgem anúncios festivos, músicas repetitivas e um excesso de mercadorias apelando à compra compulsiva. Quando finalmente chega o Natal muitos já se sentem saturados do excesso de estímulos pelo vazio do ritual meramente comercial.

O verdadeiro Natal, para muitos – entre eles eu próprio – começa apenas na Senhora da Conceição a 8 de dezembro e culmina no Dia de Reis. Antes celebrava-se sobretudo o presépio, símbolo de humildade e esperança e não tanto as figuras artificiais importadas por modas e interesses comerciais. O sentido místico desta quadra – recordar o nascimento de Cristo numa humilde manjedoura – foi ofuscado por um frenesim de compras e consumos.

O espírito natalício outrora associado à paz, à concórdia e ao reencontro familiar, cedeu à voragem do lucro e à superficialidade do mercado. Dezembro converteu-se no mês do discurso vazio onde pouco resta de autêntico ou sagrado. 

Se quisermos reverter este ciclo de alienação, importa recuperar o verdadeiro significado do Natal, um tempo de reflexão, de solidariedade e de partilha, é preciso reaprender a valorizar aquilo que é essencial, para que a nostalgia do “depois” não seja, no futuro, a única recordação que nos reste.

José Coelho