- Amigo Coelho vou dizer-lhe uma coisa mas você vai fazer de conta que não sabe. É mesmo só para você se por a pau com algumas pessoas que se fazem muito suas amigas, mas depois nas suas costas…
E continuou:
- É sobre a carteira perdida no mercado com mil escudos lá dentro que você levou para o posto.
- Quando chegou da patrulha não se apercebeu da conversa? Inquiriu.
- Sim, apercebi-me que estavam a falar nisso, mas não prestei atenção. Respondi.
- Pois! Esse nosso camarada estava a dizer que se calhar você combinou com a senhora para ir lá buscar a carteira e dizer que era dela para depois dividirem os mil escudos a meias. Mas você não diga nada…
Foi como se um raio me atingisse de súbito.
Não era possível que um energúmeno daqueles fosse capaz de descer tão baixo e acusar-me de uma coisa tão suja, achando-me capaz de algo tão desprezível. Logo um conterrâneo cujo pai fora, segundo ele mesmo contava, o mestre pedreiro construtor da casa do meu pai e até se gabava de a ter ajudado a construir por lá haver trabalhado...
Assim que fechei a porta da minha casa atrás das costas desatei num pranto incontrolável e profundo. Chorei como nunca me lembro de ter chorado em toda a minha vida. Chorei por aquela injusta e maldosa falsidade acabadinha de acontecer. Chorei por todos os enxovalhos que até ali sofrera desde a hora em que meti os pés na guarda republicana e chorei de indignação por nunca mais me ver livre de tantas injustiças e agressões maldosas.
Eu suportara melhor ou mais mal no alistamento tantas calúnias por serem falsas, concebidas por maldade e sem o menor fundamento. Mas chamarem-me desonesto, afirmarem que eu era capaz de “engendrar” um golpe sujo para ficar com… quinhentos escudos? Doía-me muito.
Não podendo imaginar nem pouco mais ou menos o que de tão grave pudesse ter sucedido, a minha companheira ficou obviamente alarmada ao ver-me assim. Por isso e para não a assustar mais, quer a ela, quer aos miúdos, tentei acalmar-me.
Seguiu-se depois uma longa noite de vigília a dois, e, enquanto ao nosso lado os dois pequeninos dormiam o sono dos inocentes, contei-lhe, novamente em lágrimas, pormenorizadamente, o inferno que tinha sido todo o alistamento em Portalegre e que havia guardado tudo aquilo só para mim por amor a eles, por não querer preocupar mais ninguém.
Para terminar expliquei-lhe o caso do porta-moedas perdido no mercado naquele próprio dia e o que o nosso conterrâneo tinha insinuado. E foi nessa tormentosa noite que tive a maior prova da grande mulher que era a minha, mãe dos meus filhos, companheira discreta e dona da maior das simplicidades, mas também capaz de se dispor a fazer fosse o que fosse para me ajudar a ser feliz ao seu lado.
- Não chores mais que “a gente” vai resolver isso…
Ficou um bocado a pensar só para si. Por fim foi a sua vez de falar e a minha de a escutar.
E que bom foi ouvi-la:
- Que nunca lhe passara pela cabeça as “brutidades” que na GNR eram capazes de fazer contra mim ou contra outra pessoa qualquer. Por isso tinha tão má fama.
- Que tudo aquilo fora inadmissível e que eu nunca devia ter ficado calado mas sim ter-lhe contado, porque para isso éramos marido e mulher, pois se tivesse sabido de tudo na altura teria sido a primeira a dizer-me para sair “da merda” do alistamento e os “mandar cagar” a todos.
- Mas agora tinha de ter calma e não fazer nada antes de telefonar ao José Mouro meu anterior capataz nas Minas da Panasqueira e ao primo João Gaspar a ver se nos ajudava a arranjar lá casa.
- Que visse primeiro essas hipóteses e de certeza eles iriam ajudar-nos porque sempre foram grandes amigos nossos. Só então depois entregava "o papel" para sair da Guarda e ela mais os nossos filhos iam comigo.
Nada disso foi necessário porém, porque a ajuda do camarada Faustino Marques com a sua conversa na Capelinha na Senhora da Penha logo no dia seguinte e aqui transcrevi há poucos dias com o título ‘Existem anjos sobre a terra’, foi determinante porque mudou a minha decisão de desistir da profissão de GNR.
Diz o povo e com razão que algumas vezes há males que vêm por bem.
José Coelho