quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Aceitar, desacelerar e lembrar com gratidão

Envelhecer não é uma tarefa simples. Trata-se de uma viagem interna e profunda, marcada por transformações físicas, emocionais e sociais. É um desafio constante aceitar a passagem do tempo, desacelerar o ritmo dos dias e, ao mesmo tempo, reconhecer e valorizar quem nos tornámos. Abandonamos pouco a pouco a versão anterior de nós mesmos para abraçar com ternura e respeito o novo ser em que nos tornámos.
A cada ruga, cada fio de cabelo branco, somos convidados a enfrentar o desconhecido. Olhar o próprio reflexo no espelho passa a exigir coragem: não só para encarar as marcas do tempo, mas também para vestir este novo corpo com dignidade. Deixar para trás a vergonha, o preconceito e os medos, esses inevitáveis companheiros da maturidade, é um ato de bravura diária.
Envelhecer é também um exercício de desapego. A vida, com o seu curso inexorável, ensina-nos a deixar ir quem precisa partir, a abrir espaço para novas pessoas e afetos, e a acolher de coração aberto aqueles que escolhem permanecer ao nosso lado. Cada despedida carrega em si uma lição de amor e maturidade.
Há momentos em que o caminho se faz em solidão. Aprender a caminhar só, despertar em silêncio e resistir ao peso das manhãs faz parte da jornada. Enfrentamos, muitas vezes em silêncio o homem ou a mulher que fomos, que somos e que continuaremos a ser. Encontrar força nesse silêncio é descobrir uma nova dimensão de si mesmo.
Envelhecer é aceitar que tudo tem um fim: sonhos, amores e, um dia, a própria vida. Saber dizer adeus sem nos quebrarmos exige maturidade e uma certa serenidade. A capacidade de recordar sem se perder no passado, de chorar até que as lágrimas deem lugar a novos sorrisos e pequenas alegrias, é o que nos permite continuar a viver de forma plena.
Em cada cicatriz guardamos a prova de batalhas travadas, de amores vividos, de perdas e conquistas. As memórias são o legado maior do tempo: contêm a verdade de uma existência intensa, destemida, repleta de humanidade. Não, não é fácil envelhecer. É preciso coragem, é preciso aceitação, mas sobretudo, é preciso humanidade para reconhecer a beleza que há em cada novo capítulo.
Que saibamos desacelerar os passos, aceitar o que de novo surge e lembrar o passado com gratidão, sem nunca nos perdermos de nós mesmos.
Texto e foto com Maria Coelho