segunda-feira, 2 de março de 2026

Esta incurável saudade

O lugar do Muro da Freguesia de Beirã onde nasceu a minha mãe e quase todos os seus irmãos e irmãs, era muito afastado de qualquer povoação, no meio dos canchais da raia onde viviam apenas três ou quatro famílias. Tinham, por isso mesmo, de ser autosuficientes.

Comiam do que semeavam nas hortas, dos galinheiros sempre cheio de aves, dos frutos sazonais dos pomares, e iam todos os meses moer o centeio aos moinhos do Sever lá para os lados das Amendoeiras, para obterem a farinha com que amassavam o pão.
Nesse tempo por todo o lado moravam camponeses, pastores ou mesmo assentadores do caminho de ferro pelas casetas dispersas por toda a linha férrea, da estação da Beirã até à ponte fronteiriça sobre o rio Sever.
Lembro também, como não, o asseio e a arrumação esmerada da casinha da minha avó Amélia na Cavalinha, quando ficaram só já os dois velhotes, depois de os filhos todos irem cada um à sua vida exceto o mais novo, o tio Raimundo que nunca casou e que, por ser guardador de cabras justo ao mês, só ia a casa mudar de roupa aos sábados.
As paredes da casa, a varanda e os poiais imaculadamente brancos pela insistente cal, a cantareira dos barros da cozinha meticulosamente alinhada, o cântaro sempre cheio de água fresca, os alumínios areados e brilhantes como espelhos, em resumo, a agradável sintonia que de tudo emanava e nos transmitia uma sensação de asseio, harmonia, paz e genuíno bem-estar.
Nunca mais saboreei comidinha tão saborosa como a que a avó cozinhava na sócha ao lado da casa em lume de chão e em panela de barro ou na sertã. A sócha fora feita pelo meu avô para poupar a brancura da lareira da cozinha, porque a avó não gostava de a ver mascarrada pelo lume e pelo fumo.
Quando decidiram formar família, os meus progenitores debatiam-se com os problemas comuns a todos os camponeses daquela época – famílias numerosas e escassez de meios de subsistência – exceto o da renda ao senhorio, porque a casa era deles. O meu sensato pai quando herdou dezoito contos de reis de uma tia-avó meio rica, não se deixou deslumbrar pela fartura de notas nas mãos – dezoito contos de reis em 1948 eram uma pequena fortuna – e gastou até ao último centavo na compra do terreno e construção do nosso ninho familiar.
Quatro pequenas divisões. Uma cozinha com uma bela lareira, uma sala e dois quartos. O dinheiro já não deu para as portas interiores, mas a minha mãe resolveu temporariamente o problema com umas cortinas de chita para o resguardo possível da sua privacidade, até conseguirem ir colocando as portas.
Era modesta, mas era deles.
Aqui nasci já eu e as minhas duas irmãs mais novas, a Luz e a Joaquina. A Adelina, a mais velha que já não está entre nós, nasceu três anos e meio antes de a casa estar construída. Hoje é o meu lar. Tive de ficar com ela por vontade e empenho absolutos do meu pai.
O tempo levou-mos já todos, entretanto. Avós, pais, e muitos outros entes queridos que moldaram a pessoa que me tornei. Entretanto foi necessário ampliar e modernizar a casa, mas fiz questão de manter intactas as primitivas quatro pequenas divisões dentro do novo projeto.
Só a bela lareira alentejana que existia na cozinha original teve de mudar de sítio e de feitio porque essa divisão foi promovida a salinha de estar.
Sou tão profundamente grato à memória de todos eles, santo Deus. Tudo quanto me ensinaram me fez falta e me ajudou a vencer inúmeros obstáculos, para atingir metas. Por isso, de todos eles, esta incurável saudade...