sábado, 28 de março de 2026

Uma pedra só, não faz parede

16 de julho - o único dia do ano em que a igreja se enche de fiéis
Sabendo que a meia dúzia de pessoas que costuma vir à missa só chega perto da hora, fui um bocadinho mais cedo para a igreja. Pude assim estar alguns minutos a sós com a Senhora do Carmo, com o Santíssimo no Sacrário e com as imagens que os acompanham na nave: a Rainha Santa Isabel, a Senhora de Fátima, São José com o Menino, o Menino Jesus de Praga, a Senhora da Conceição e, no baptistério, o velho São João Baptista que preside a todos os batizados nesta igreja desde 16 de julho de 1943 - e ao meu também há 74 anos - depois ao das minhas irmãs mais novas, ao dos meus filhos e mais recentemente ao das minhas netas.
Neste santo templo casaram os meus pais, casámos eu e as minhas irmãs, casaram também os meus filhos e uma sobrinha. É impossível não me sentir bem aqui. Para além de Casa de Deus e da Senhora do Carmo, é o lugar onde guardo algumas das memórias mais queridas da minha vida – como sucede com tantos Beiranenses que vivem longe mas continuam espiritualmente ligados a este espaço.
A devoção à Senhora do Carmo mantém-se viva e prova disso é a sua festa anual que continua a trazer gente de todos os cantos do mundo para onde a vida os levou depois do encerramento do velho e querido Ramal de Cáceres que os deixou sem o seu ganha-pão por cá.
Com o passar do tempo fui percebendo que a Beirã se ia esvaziando e que a Paróquia acompanhava esse movimento. Sem pessoas não há comunidade e a falta de presbíteros, embora importante, nunca foi tão decisiva como a diminuição dos fiéis. Os que por cá ficámos temos procurado manter viva a vida paroquial apesar das dificuldades agravadas pela morte inesperada do Padre Luís Marques que alterou tudo de forma profunda.
Se já éramos poucos aos domingos, aos sábados ficámos ainda menos. Há muitas celebrações - a maior parte delas - em que somos apenas seis ou sete.
É a realidade.
Foi sobre tudo isto que em silêncio refleti este sábado, antes de abrir as portas da igreja e preparar o ambão para as leituras. Os paramentos já estavam prontos na sacristia e as alfaias no altar, colocadas pela minha Maria Coelho que semana após semana assegura tudo isso que antes era tarefa dos acólitos.
A verdade é simples: sacrificando a missa dominical que passou a ser vespertina aos sábados, o Senhor da messe providenciou, um pastor e a forma possível para que a celebração continuasse.
Não é pois, a falta de padres que deixa vazia a igreja.
É a falta de pessoas.
E como dizia o meu pai, uma pedra só não faz parede.