Quando cheguei a Nisa cedo me apercebi que as relações entre a Guarda e as restantes autoridades civis do concelho e comarca eram de um quase confronto e oposição mútuos. Os eleitos municipais eram liderados pela CDU, a coligação comunista que o meu antecessor odiava e hostilizava. Não havia por isso diálogo nem aquela colaboração e respeito mútuos que são normais entre todas as entidades públicas de qualquer concelho, seja qual for a cor política dos seus eleitos.
Não cabe à Guarda, nunca coube em tempo algum, hostilizar seja que entidade for, muito pelo contrário. Descobri ali, sem querer, que aquele “ódio” que o meu ilustre antecessor me devotara no alistamento e pelo qual tanto me infernizara a vida, era exatamente o mesmo que devotava ao presidente da câmara de Nisa desse tempo (1985) e à maior parte dos nisenses que pública e manifestamente votavam na CDU concedendo-lhe por isso vitorias sucessivas, em sucessivos atos eleitorais.
Como se não fosse já um problema bicudo, com as outras entidades civis infelizmente as coisas não estavam mais famosas em termos de relacionamento. Olhavam para nós de lado, com pouca simpatia e ainda menos espírito colaborante.
Longe de me deixar intimidar com aquele panorama, senti-me interiormente incentivado a mudar aquele estado de coisas até onde me fosse possível, ainda que com plena consciência de ir cutucar um ninho de vespas que iriam tentar ferrar-me pela ousadia. Sem nada dizer a ninguém porque sabia de antemão que não iria encontrar apoio interno por parte de quem deixara abandalhar aquilo tudo ao ponto em que se encontrava, tomei várias iniciativas que me pareciam prioritárias.
A primeira foi redigir um ofício timbrado e endereçá-lo a todas as entidades locais. Presidente da Câmara Municipal, Juiz de Direito da Comarca, Delegado do Ministério Público, Chefe da Secretaria do Tribunal, Chefe do Serviço de Finanças, Delegado de Saúde, Gerentes das entidades bancárias, Bombeiros Voluntários e demais entidades públicas, a todos me identificando como o novo comandante do posto de Nisa e solicitando autorização para pessoalmente me apresentar a todos eles para cumprimentar cada um dando-me a conhecer, ao mesmo tempo que manifestava a minha disponibilidade para uma estreita colaboração institucional dali em diante.
Foi uma pedrada no charco! E um sucesso inesperado com o qual nem eu próprio contava. Umas atrás das outras, todas as entidades me responderam quase no imediato, agradadas com a minha atitude e abrindo as portas dos seus gabinetes para me receberem e conhecerem. Parecia que toda a gente queria restabelecer a relação amigável e institucional que nunca deveria ter sido quebrada e posta em causa.
E lá fui eu visitá-los a todos, à vez. Sem subserviência, sem nunca deixar de evidenciar o prestígio da minha mui nobre instituição, a todos me apresentei com humildade, mas também com a dignidade que o meu novo cargo exigia. E de todos recebi palavras amigas, de incentivo e de boa amizade, em simultâneo com as felicitações pela minha iniciativa, seguidas sempre de um “conte conosco”.
O primeiro e mais importante passo estava dado. Mas muito mais havia para fazer e não cruzei os braços nem me deixei adormecer à sombra dos elogios. Pelo contrário, comecei a “sondar” quem poderia dar apoio para melhorar as condições de habitabilidade das velhas e decrépitas instalações. E para que percebessem a urgência em meter mãos à obra, nada melhor que convidar todas aquelas entidades a visitarem o posto para que pudessem verificar com os seus próprios olhos a indignidade que era viver naquele edifício e as precárias condições que oferecia a quem necessitava de ali trabalhar para manter a ordem, a paz e tranquilidade públicas para benefício de toda a comunidade.
Retribuí com a mesma abertura e cordialidade para com todas as entidades que não se fizeram rogadas e compareceram ao meu convite. E uma vez ali, sem quaisquer complexos, mostrei-lhes tudo aquilo a que chamavam pomposamente o quartel da GNR da vila de Nisa. Evidentemente todos ficaram surpreendidos com tão avançado estado de degradação do edifício que pela sua aparência exterior denunciava de facto alguma velhice, mas não tanto como a do seu interior.
Estando presente o senhor presidente da câmara municipal acompanhado de alguns dos vereadores, imediatamente apelei à sua sensibilidade para dentro daquilo que lhes fosse possível me ajudassem no restauro das divisões mais carenciadas que infelizmente eram quase todo o edifício, pois sem a sua ajuda isso não seria possível…
José Coelho in Histórias do Cota
Continua no capítulo (2)
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