sexta-feira, 6 de março de 2026

Era uma vez a Páscoa

Na imparável roda do tempo mais uma festa de flores – como os nossos avós lhe chamavam – se aproxima a passos largos. A festa maior da primavera outrora caracterizada por exéquias religiosas que enchiam de gente as ruas e fé as igrejas em solenes celebrações litúrgicas levadas muito a sério desde o Domingo de Ramos até Sábado Santo, era também, como ainda é hoje se bem que com muito menor expressão, pretexto para a visita quase obrigatória dos familiares distantes que juntava à mesa pais, avós, filhos e netos, em festivos almoços.

Porém, também ela, a velhinha Páscoa, como quase tudo o resto que já conheci, está a caminho da extinção. Pelo menos por aqui, neste mundo em que eu habito.
Não há muitos anos os comboios traziam de longe as carruagens cheias de familiares e gente amiga que cumprimentávamos e nos cumprimentavam com amizade na rua e a aldeia rescendia ao suave aroma dos bolos fintos a cozerem nos fornos de lenha, assim como do balir dos borregos e cabritos a caminho do seu inevitável sacrifício em honra da familiar tradição pascal. Em Castelo de Vide terra do meu pai e de ancestrais costumes de raiz judaica, até merecem, esses animais, honras de benzedura, antes de serem sacrificados.
Embora eu também aprecie o culto da família, entendo que não deveria ser essa a parte mais importante de cada Páscoa, porque a essência dela é muito mais além. Mas é irreversível o geral desinteresse pelo culto religioso que foi substituindo a solenidade do sacrifício de Jesus por estes novos e muito mais rentáveis valores do consumismo que têm transformando a Semana Santa – e também os nossos hábitos – na semana do sarapatel, ou do cabrito e do borrego, ou da chocalhada da aleluia, ou da procissão dos cavalos com bandeiras e estandartes.
Para turista ver, claro. Fé? Qual quê! Folclore do mais genuíno para gerar e alimentar os negócios da região. E pouco mais. É o que eu acho, mas respeito qualquer outra opinião, obviamente.
Não sei como é noutros lugares mas na Beirã e na missa de Quinta-feira Santa comparecíamos 8 ou 9 pessoas. Depois na Via Sacra de Sexta-feira Santa, éramos 10 ou 11. Pois! É verdade! Na Beirã também já quase não moram muitas mais. Em consequência de tão modesto número de participantes o Revº Pároco juntou todas as essas santas celebrações apenas na paróquia da sede do concelho até à celebração da vigília pascal e ali se reúnem os paroquianos das quatro paróquias concelhias que podem e querem estar presentes desde então.
Enquanto foi amor novo, era a igreja a abarrotar de gente vinda de todo o concelho e também muitos turistas. Centenas de participantes encapuçados nas exéquias e procissões como a do Enterro do Senhor, depois a Aleluia e chocalhada na noite de Sábado Santo, numa euforia que durou... três, quatro anos, para logo ir diminuindo pouco a pouco, contando-se atualmente essa participação por apenas algumas dezenas de pessoas.
Já na Vigília Pascal e chocalhada d'Aleluia da vila ao lado, que é à mesma hora, juntam-se todos os anos não centenas, mas milhares de pessoas. Hotéis e restaurantes cheios pois muita gente não está já para ter trabalho com tachos ao lume e loiça para lavar. Há quem tire até uns dias de férias para vir com o chocalho em riste engrossar a multidão deste autêntico arraial que até termina com fogo de artifício e tudo.
Os valores e princípios herdados dos nossos antepassados que tinham um incomensurável sentido de união e partilha foram-se sumindo para darem lugar a estes novos costumes atípicos, vazios de conteúdo humano e religioso que visam apenas protagonismo mediático e lucro.
Já sei. Estou a ficar velho e ranzinza, mas não consigo rever-me nem aceitar como boa, a futilidade destas modernices em que se transformaram os nossos costumes e tradições. Mais penso até que, se os nossos antepassados cá voltassem, não iam gostar nada destas modernices em completa degeneração.

José Coelho