Foto - 21. 03. 2026
Cada vez me orgulho mais de ter nascido filho de gente humilde, honesta e habituada a viver apenas com o essencial: pão na mesa, roupa no corpo e dignidade no coração. Os meus pais não tinham meios para me mandar para a universidade – e ainda bem. Assim cresci como um simples cidadão do mundo, livre de pretensões e fiel às minhas raízes.
Não ter uma licenciatura nunca me tornou menos atento ou menos capaz de compreender o mundo. A família da minha mãe tem grande parte das suas origens em Espanha, e eu nasci pouco depois de terminada a sua guerra civil, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial. Eram tempos duros, marcados por conflitos que deixaram cicatrizes profundas.
Nas noites frias de inverno, à lareira, ouvi histórias de quem viveu o medo de perto. O nosso patrão, quando ia tratar do gado à Retorta, junto ao rio Sever, escutava tiros e gritos vindos do outro lado da fronteira. A família só descansava quando ele regressava são e salvo. E não era só isso: fugitivos surgiam na calada da noite, pedindo comida e ajuda. Quem pouco tinha, pouco dava, mas dava sempre – e eles desapareciam de novo na escuridão, carregando medos que só eles conheciam.
Foi neste ambiente difícil que nasci e comecei a minha vida. E foi também por causa desses tempos conturbados que surgiu o Ramal de Cáceres e a estação ferroviária da Beirã, para reforçar o comércio entre Portugal e Espanha. A aldeia, quase inexistente, cresceu com a chegada dos serviços e das pessoas que vinham trabalhar para a fronteira.
Com mais gente, foi preciso criar condições para viver: abriram-se hortas, pomares, olivais, searas. A terra era dura, cheia de granito, mas mesmo assim conseguia alimentar quem cá vivia. O que a agricultura não dava, era fornecido através de mercearias, tabernas, pensões, talhos, alfaiates, carpinteiros, barbeiros – um pequeno oásis neste concelho tão afastado de tudo.
Assim se viveu durante mais de cem anos, em paz e harmonia, até à chegada da União Europeia. Em vez dos benefícios prometidos, trouxe o declínio de muitos destes serviços e modos de vida porque a abertura das fronteiras matou os empregos em redor da estação que pouco depois encerrou totalmente pela desativação do Ramal de Cáceres determinada pelo governo de Passos Coelho, a todo o tráfego ferroviário de passageiros e mercadorias.
A frio. Com a mais completa e indesculpável indiferença pelo ganha-pão de centenas de pessoas que da noite para o dia viram as suas vidas ficarem de pantanas. Funcionários da estação, assentadores e cuidadores da via férrea, funcionários e funcionárias das passagens de nível, pessoal aduaneiro e da alfândega, guardas fiscais, em suma tudo o que gerava vida, movimento, economia e emprego. Uns atrás dos outros foram partindo, só ficou quem não quis – ou não podia – abandonar as suas casas. E os velhos já reformados.
E o comércio começou logo a definhar aos poucos, até desaparecer por completo, as casas começaram a suceder-se, umas após as outras, desabitadas e fechadas por todas as ruas.
Nunca fui militante de partido algum. A minha condição militar não o permitia e sempre cumpri essa regra. Por isso, na melhor fase da minha vida, a única participação política que pude exercer, foi votar – e talvez tenha sido o melhor.
Observando o que fizeram à minha terra e região, bem como a infindável sucessão de escândalos, corrupção, esquemas e abusos cometidos por quem deveria ser exemplo mas preferiu enriquecer à pala da política, sei que jamais eu permitiria que o meu nome e honra fossem enxovalhados pelo comportamento desajustado desses energúmenos, por mais doutores ou engenheiros que fossem.
Crimes de lesa pátria, ganância, compadrios, vergonha. Não é esse o caminho que sigo, nem aquele que me foi ensinado pela gente simples e séria que me criou. Acredito – e quero morrer acreditando – nos valores que eles me deixaram:
• O Bem Comum
• O Respeito por Todas as Pessoas
• A Dignidade Humana
• A Solidariedade acima de qualquer interesse
• A Integridade de Carácter
