Dez de março de 1972. O dia em que fiz vinte anos. Almocei com os tios Francisca Coelho e Pedro Maniés (irmã e cunhado do meu pai) na sua bonita vivenda nos subúrbios de Luanda e passei o serão na casa de fados "O campino" em companhia do seu filho mais novo meu primo-irmão Augusto Coelho Maniés e sua esposa a fadista Fernanda Varela que fazia parte do elenco de artistas que ali atuavam todas as noites.
O ar pouco animado tão evidente no meu semblante devia-se decerto ao facto de ter chegado apenas há setenta e duas horas a Angola integrado num contingente militar de substituição de efetivos numa zona de guerra, e no dia seguinte ir embarcar com os restantes camaradas de armas do BCav3871 para o enclave de Cabinda com destino ao quartel do Belize nas profundezas do Maiombe.
Foi a primeira vez que entrei numa casa de fados. Foi também a primeira vez na minha vida que comi gambas e bebi uísque. Não apreciei lá muito, nem uma coisa nem a outra. Valeram-me as dicas dos primos para mergulhar as gambas num delicioso molho picante e acrescentar gelo com um gole de Coca-cola ao uísque, para melhorar o sabor.
Sabia lá eu, na minha humilde condição de camponês alentejano, que raio de bichos e bebida alcoólica eram aqueles!
Quem pudera ter hoje a inocência que tinha então, naquele longínquo dia. Tios e primos já partiram todos para a eternidade, mas apesar de tantas coisas boas e menos boas por que passei, continuo ainda aqui.
Tive a ventura de voltar para casa são e salvo passados uns longos vinte e sete meses, de conseguir erguer-me após cada tombo, de contornar cada obstáculo até os que, matreiramente, foram urdidos para me prejudicar.
Mas Deus é Pai, Justo, Amigo, Paciente e Protetor. Por isso nunca me canso de dar graças, plenamente convicto de que foi a Sua ajuda misericordiosa que fez de mim um vencedor. Louvado seja.
Foto que me fez o primo Augusto na Fortaleza de São Miguel em frente à baía de Luanda, fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais. Foi a primeira estrutura defensiva portuguesa na região e marcou o início da construção da cidade de Luanda. Atualmente, funciona como Museu Nacional de História Militar.
