Decididamente, este já não é o meu velho e querido País. Aquele Portugal de gente alegre e genuína na sua maneiras de viver tão diferenciada quanto o eram as tradições usos e costumes de cada província e região. A alegria que sempre nos caracterizou, foi aos poucos sendo substituída por semblantes fechados em consequência de inúmeras e sucessivas preocupações. O desemprego no seu sobe e desce, a precaridade laboral e os seus baixos salários, as miseráveis pensões de reforma da esmagadora maioria dos pensionistas, o galopante custo de vida em contraciclo com os míseros aumentos salariais, as pandemias, as guerras, e, enfim, esta incerteza no dia de amanhã que permanentemente se abate sobre as nossas vidas.
Decididamente, e só não vê quem não quer, porque tem, ou teve, para si ou para algum dos seus, interesse, proveito ou lucro com as políticas que nas últimas décadas foram sendo despejadas a cachão sobre as nossas cabeças, principalmente os resistentes que teimamos em continuar a viver no interior do território luso, cada vez mais abandonado e sem os recursos necessários ao comum bem-estar, apesar de não ser também já muito famosa a situação daqueles que noutro tempo julgaram oportuno debandarem para o litoral ou para os grandes centros urbanos.
Decididamente, é aberrante termos de assistir ao desfilar de sucessivos escândalos públicos e indignidades sem tamanho, protagonizadas na sua esmagadora maioria por figuras públicas e de tal forma frequentes que acabamos por já nem fazer caso e encolher de ombros, como se todas essas aberrações fossem normais. Que sociedade é esta construída nas últimas décadas, onde alguns navegam em oceanos de dinheiro que se desconfia não ser de origem lícita, enquanto outros vivem no limiar da dignidade humana a "revoltearem" contentores do lixo pela calada da noite para conseguirem alguma coisa com que possam matar a fome?
Decididamente, não aceito e não entendo, que se atribuam pensões com menos de metade do valor do ordenado mínimo nacional, à maior parte das pessoas que se reformam atualmente, que trabalharam e descontaram uma vida inteira. Será que essas pessoas passam a comer só já metade do que comiam, a pagar apenas metade de renda da casa, ou deixam de necessitar de roupa, de calçado, de medicamentos, a partir do dia em que se reformam? Porque é que 40 anos de descontos ou mais, dão direito a tão pouco, mas aos políticos bastam 12 anos para terem chorudas subvenções vitalícias? Será que eles quando se reformam passam a comer o dobro e a pagar também o dobro pelas suas compras no supermercado?
Decididamente, nunca entendi nem entenderei os cortes na saúde para poupar na despesa dos orçamentos de estado, enquanto vi muitos milhares de milhões serem, sem qualquer dificuldade, injetados na banca para proteger os interesses dos seus acionistas.
Decididamente, tenho vergonha de haver nascido num país que tem parido gente capaz desta e de tantíssimas outras indignidades em nome de políticas com vista a um pretenso bem comum. Porque não poupam primeiro nas suas obscenas mordomias? Porque vivem os mentores destas decisões no luxo e conforto onde nada falta aos seus filhos, nem aos seus pais, nem aos seus afilhados ou padrinhos?
É esse o exemplo que dão?
Quem já viu um senhor ministro, um senhor deputado, um simples senhor secretario de estado, um CEO, um Administrador ou afins, na fila de espera da urgência de qualquer hospital público durante doze ou mais horas com uma pulseira de plástico enfiada num dos pulsos?
Decididamente, não era assim o meu País quando eu nasci, onde cresci e vivi a vida toda, trabalhei com dedicação e cumpri à letra as minhas obrigações fiscais, cívicas, profissionais e de cidadania, porque sempre me empenhei em ser honesto e íntegro por lealdade aos princípios e valores que do berço recebi. Será que os mentores destas iniquidades que definem e condicionam a vida de todos nós, alguma vez deles terão sequer ouvido falar?
José Coelho