quinta-feira, 31 de maio de 2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Excertos...

Imagem copiada do Google


(...)

E foi num desses dias que, não sei como nem porquê, se partiu inesperadamente a ponte em titânio “inquebrável” dos meus óculos. A gente só se apercebe da falta que essas coisas nos fazem quando ficamos sem elas. E assim me aconteceu a mim, que pareço logo um cegueta sem o dito cujo acessório. Ou não transportasse em mim os malandros genes da geração Lourenço, quase todos a braços com sérios problemas de falta de visão.

Fiquei pois sem conseguir enxergar nada! Nem as letras do jornal, nem as do computador ou os números do telemóvel. E em Setúbal nenhuma óptica tinha a marca daquelas armações caríssimas todas xpto porque dinamarquesas, no tal titânio que segundo a publicidade que lhes é feita para justificar o elevado preço as apelida de inquebráveis, quase à prova de bomba. 

Por conseguinte, não havia também em nenhuma óptica da capital do Sado os acessórios para substituir aquele que se partira. Eis senão quando um excelente amigo dos Caçulas que trabalha nos Restauradores, sabendo que no dia seguinte iríamos a Santa Maria, nos indicou uma óptica onde talvez me resolvessem o problema.

Assim fizemos. Mal nos despachámos da consulta médica rumámos à baixa pombalina onde sem grande dificuldade encontrámos a casa indicada. Começámos logo por ser impecavelmente atendidos. Posto em seguida o problema, prontamente foi resolvido, uma vez que, ali sim, trabalhavam também com a tal marca de fabrico dinamarquês. Foi só mesmo esperar o tempo necessário para substituir a ponte partida por outra nova.

Trabalho executado paguei, obviamente aliviado já de novo “equipado” com os "quatro olhos" e muitíssimo satisfeito, pois faziam-me mais falta os óculos na cara do que as notas na carteira.

Entretanto, o senhor que tão impecavelmente me atendeu, informou-me ainda cordialmente que os óculos eram mesmo de titânio supostamente inquebrável e não uma cópia fatela, ou uma falsificação, como eu estava a suspeitar, e que, por serem daquela prestigiadíssima marca, ia enviar a peça partida para a fábrica na Dinamarca. Mais disse ainda que provavelmente eles iriam reenviar-lhe gratuitamente a peça para substituição. Logo que tal se verificasse, ele iria devolver-me o montante que eu acabara de liquidar. E, para esse efeito, solicitou-me o meu contacto telefónico bem como o endereço postal dos quais tomou a devida nota.

Passaram-se 3 meses. Nunca mais eu me lembrei de tal coisa até ao dia em que através de chamada telefónica o senhor da óptica de quem eu nem sabia sequer o nome – e agora sei porque vinha no cheque – pediu a confirmação dos meus dados a fim de emitir o cheque com o valor a devolver, tal como tinha previsto e prometido.

Nos tempos que correm, em meu entender, tal atitude é uma completa excepção à regra! Jamais eu pensei que alguma vez aquele dinheiro me iria ser devolvido, não só pela raridade da situação, como também pelo facto de os intervenientes não se conhecerem de lado nenhum, pois que, se não fosse a necessidade de consertar um par de óculos, nunca se teriam cruzado nas suas vidas.

São estes louváveis e extremamente belos comportamentos humanos que me surpreendem pela positiva e me fazem gostar de ser gente porque acredito sinceramente que haverá mais pessoas com  esta lisura de carácter e indescritível idoneidade, merecedoras por isso da nossa confiança e do mais profundo respeito.

Fiquei tão sensibilizado que no minuto seguinte estava a escrever àquele ilustre senhor para lhe agradecer o seu honrado gesto, muito mais valioso para mim do que propriamente o montante do cheque, apesar de não ser assim uma quantia tão pequena, tão pequena, que a tornasse insignificante. Eram umas dezenas de euros.


(...)

                                                                           Do livro Histórias do Cota

Post Scriptum: 
Isto aconteceu e foi escrito há já mais de dez anos. Eu e o Ivo – é como se chama o Exmº Senhor – somos dois amigos que se estimam e respeitam mutuamente desde aquela data até hoje.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Ainda que já um pouco atrasados, votos de boa semana...

O painel de azulejos pintado à mão do nosso alpendre.

Recordando coisas q'escrevi no extinto TocadosCoelhos ...

Foto by José Coelho



 O resto é (mesmo) paisagem...

Ao sobrevoar, há dias, os céus de Lisboa e tendo a sorte de ocupar um lugar junto a uma vigia da aeronave, tive o raro privilégio, dada a luminosidade daquela esplêndida manhã, de desfrutar da magnífica paisagem que se vislumbra lá do alto, enquanto ganhávamos altitude na nossa rota rumo ao Funchal.

E não pude deixar de compreender, assim de uma assentada só e sem mais explicações, porque é que o meu concelho de Marvão e as suas aldeias estão semi-vazias de gente, com inúmeras casas fechadas e sem perspectivas de futuro. Não vale a pena tapar o sol com a peneira.

Falo de Marvão que é o profundo Portugal onde moro, mas sei que toda a faixa interior que vai de Bragança a Vila Real de Santo António enferma do mesmo mal.

E porquê? Fácil!

Porque, de Abrantes até ao Oceano Atlântico, as vilas e cidades pegam quase umas nas outras e é visto assim, lá do alto, que isso melhor se percebe. Daquela janelita do avião, parecia uma só cidade, até onde o meu olhar alcançava, numa extensão incalculável de litoral, até que por fim a altitude não permitiu que se vislumbrasse mais do que um maravilhoso e único tapete de nuvens brancas e aparentemente fofas como algodão, mesmo por baixo de nós.

É completamente impensável já reverter tal situação. Somos poucos por cá já hoje. Seremos cada vez menos, não o duvido, no futuro. Vão restando alguns jovens resistentes e os reformados como eu que dão ainda alguma vida às aldeias e criam alguns empregos nessa nova indústria que são os lares e centros de dia. Quando forem actualizados os censos, aposto que seremos menos 30 ou 40% de cidadãos marvanenses, do que os contabilizados na última vez...

No litoral, pelo contrário, há demasiada gente. Mas ali há também oferta de quase tudo o que as famílias necessitam. Eu próprio já pouco conto com os meios daqui. Quase tudo o que preciso ali encontro com precisão, eficiência e rapidez e está à distância de duas horas de viagem no meu velhinho Corsa. Chatices para quê? Bairrismo? Uma ova! Isso era dantes.

Na terra do bom viver, faz sempre o que vires fazer. E eu assim faço mesmo. Santos de casa não fazem milagres e os de Marvão então, é um descalabro. Uma vergonha. Aqui só se cuida e trata bem quem de cá não é. Turistas? Não! Modernices...

Um dos meus filhos já se foi de vez e diz sem papas na língua que não quer para cá voltar. O outro, não sei bem ainda, mas provavelmente seguirá o mesmo caminho, porque aqui só nos conhecem e dão alguma atenção em época de eleições. Passados os votos... Quem és tu?

Uma vergonha. Porém se calhar também só temos o que merecemos, porque continuamos estupidamente a votar neles. E resmungamos, resmungamos, mas lá vamos andando e achando que talvez as coisas mudem ou melhorem...

Porém, velho que também já vou sendo, já deduzi há algum tempo que o melhor é esperarmos sentados, para não cansar tanto as pernas!

E, cada vez mais, aquela conhecida máxima, oriunda do (algo já saudoso) tempo do António de Santa Comba, vai sendo de novo uma realidade nua e crua...

Portugal é Lisboa e o resto...

Quando viajarem de avião olhem bem cá para baixo e com certeza verão dissipadas as vossas dúvidas. Se por acaso as tiverem ainda.


José Coelho in "http://tocadoscoelhosbeira.blogspot.com" 
Março de 2010 

domingo, 27 de maio de 2018

Chove ou não chove?!...

 Fonte da Celorica na encosta norte da serra de Marvão

Excertos...

Almoçarada nas Amendoeiras com a família materna
onde estão todos os personagens desta "estória"

(...)

"Lembro-me como se fosse hoje daquele sôcho enorme coberto de piornos e xaras que fazia de cozinha e de sala de jantar onde comíamos castanhas secas cozidas em leite de cabra, uma perfeita delícia. E do outro sôcho mais pequeno onde dormíamos. Felicidade das felicidades, o meu tio e primos espanhóis tinham uma panóplia de animais amestrados que vinham comer à nossa mão e faziam parte da família! Uma cegonha que se chamava Adriana. Um corvo que se chamava Vicente. Um mocho que se chamava Carrilho. Não sei quantos gatos e cães. Rolas bravas. Cabras e cabritos. Era um paraíso para mim, tudo aquilo.

E foi quando me preparava para regressar a casa no fim de umas dessas férias que o meu tio Joaquin - que Deus o tenha - por ver que eu tinha tanto afeto à bicharada, foi buscar uma rolita nova que ainda quase nem voava e me a ofereceu dizendo:

 - Toma! Lheva-la contigo e toma-te cuenta della...

Louco de felicidade agarrei a rolita e apertei-a contra o peito dando pulos de alegria. Em seguida fui ter com o meu primo Raimundo que tinha lá ido buscar-me para me acompanhar no regresso a casa e mostrei-lhe o presente adorado exclamando no meu "portunhol":

 - Mira, mira, la rolita que tu padre me dió, qué bonita...

Qual não foi o meu espanto quando de repente a cabeça da rola tombou inerte. Estava morta. De tanta alegria e felicidade que senti, apertei com tanto carinho e tanta força a pobre ave que a sufoquei. Escusado seria dizer-vos que passei todo o caminho das  Gagas até às Amendoeiras a chorar desconsolado enquanto o Raimundo ria a bandeiras despregadas e repetia olhando-me divertidíssimo:

- Oooohhh! Mira, mira, la rolita tan bonita…

E ria como um desalmado. Ainda este ano em Agosto veio de novo visitar-me como faz regularmente todos os anos há décadas e voltou a falar disso com o riso do costume: 

- Pobrecita la rolita Rosémanué...

É caso para dizer como diz o ditado:

Tanto bem quer o diabo à mãe, que lhe tira os olhos!"

(...)

Do livro Histórias do Cota

sábado, 26 de maio de 2018

Bom fim de semana...

Altar-mor da igreja da Beirã em noite de procissão 


O interior do templo que fotografei do ambão. Simples, discreto, de uma brancura imaculada, a cor-rainha do Alentejo. Aqui levo já 60 anos da minha vida.  A participar e a ajudar nas celebrações desde os 6 anos de idade. A cuidar deste abençoado património com todo o meu empenho desde 2002. Aqui casaram os meus pais, as minhas irmãs, eu e os meus filhos. Aqui fui batizado assim como as minhas irmãs, filhos, netas e sobrinhos. Como não amar este lugar bendito que guarda tantas e tão boas memórias?

Da Beirã, com amizade

O fim de semana chega sempre com um passo diferente. Não corre. Não buzina. Não traz agendas apertadas nem relógios impacientes. Chega deva...