domingo, 1 de novembro de 2026

Uma geração irrepetível

Somos da geração que não volta. Não porque tenha desaparecido de repente, mas porque o mundo que a moldou já não existe. Ficou para trás, guardado numa espécie de baú invisível onde vivem as memórias mais simples e, por isso mesmo, as mais preciosas.
Fomos crianças que iam para a escola a pé, mochila às costas, sem telemóveis, sem localizadores e sem relógios a contar cada minuto. Os nossos pais despediam-se à porta com um aviso rápido e uma confiança tranquila. E nós seguíamos caminho, conversando, correndo ou sonhando acordados, como se a estrada fosse uma extensão natural da nossa liberdade.
Ao chegar a casa, havia uma missão urgente: despachar os trabalhos escolares. Não porque fôssemos particularmente estudiosos, mas porque lá fora nos esperava a verdadeira aventura. A rua era o nosso parque temático, o nosso campo de jogos e o nosso ponto de encontro.
Brincávamos até o sol se esconder atrás dos telhados. Inventávamos mundos inteiros com quase nada. Um canto da praça transformava-se num castelo, um terreno vazio numa floresta misteriosa, uma simples bola em motivo suficiente para juntar meia dúzia de amigos durante horas.
Quando chegava o anoitecer, o esconde-esconde tornava-se ainda mais emocionante. As sombras ajudavam-nos a desaparecer e a imaginação fazia o resto. Não havia ecrãs a ocupar-nos o tempo. Havia ruas, árvores, gargalhadas e uma vontade inesgotável de estar juntos.
Fizemos bolos de lama que nunca foram para o forno, construímos brinquedos de papel e passámos tardes inteiras à beira de um lago ou de um ribeiro, convencidos de que não existia lugar melhor no mundo. E talvez não existisse mesmo.
Depois chegou a tecnologia, ainda tímida, como quem pede licença para entrar. O walkman parecia uma maravilha saída do futuro. As cassetes VHS traziam o cinema até à nossa sala. As disquetes guardavam os nossos primeiros trabalhos e as fotografias eram tiradas com parcimónia, porque cada disparo contava. Havia depois a espera pela revelação, uma ansiedade que os mais novos dificilmente compreenderão.
Lembro-me também de ver vizinhos de chave de fendas na mão, a ajustarem as antenas para que a imagem deixasse de dançar no ecrã. Crescemos a ver os nossos pais resolverem problemas com engenho, persistência e paciência. Sem darem conta, ensinavam-nos que quase tudo tem conserto quando não se desiste à primeira dificuldade.
E à noite, já deitados, ainda encontrávamos energia para rir baixinho debaixo dos lençóis, convencidos de que ninguém nos ouvia. Sonhávamos muito, dormíamos pouco e acordávamos sempre com a certeza de que mais um dia extraordinário nos esperava lá fora.
Hoje percebemos que tivemos o privilégio raro de viver entre dois mundos. Conhecemos o tempo do toque e assistimos ao nascimento do clique. Vivemos o analógico antes do digital. Guardámos cartas, fotografias e memórias em caixas de sapatos antes de passarmos a guardá-las em nuvens invisíveis.
Somos, talvez, a última geração que sabe exatamente o que significava esperar. Esperar pela fotografia revelada, pela carta que chegava pelo correio, pelo programa favorito na televisão ou simplesmente pelo amigo que aparecia à porta para chamar para brincar.
Por isso, quando olhamos para trás, não sentimos apenas nostalgia. Sentimos também gratidão.
A geração que fomos pode estar a desaparecer pouco a pouco, mas aquilo que viveu permanece intacto dentro de nós. E enquanto houver alguém para recordar esses dias com um sorriso nos lábios, ela nunca desaparecerá por completo.
Porque há gerações que passam.
E há gerações que ficam para sempre na memória.

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...