Há pequenos luxos que a vida moderna nunca conseguiu substituir. Um deles é abrir a porta de casa numa noite fria e sentir o abraço silencioso de uma lareira acesa.
Quem vive na aldeia sabe do que falo.
Lá fora, a geada prepara-se para descer sobre os campos. O ar entra pelas narinas como se viesse diretamente da serra. As mãos procuram os bolsos e os passos apressam-se na direção de casa.
Depois a chave roda na fechadura.
E acontece a magia.
Um ambiente morno vem ao nosso encontro ainda antes de fecharmos a porta. O calor espalhado pelo lume percorre a sala, espreita pelo corredor e vai quase até ao passeio, como se a própria casa estendesse os braços para receber quem chega.
Nesses instantes percebemos que o conforto não tem nada a ver com luxo.
Tem a ver com pertença.
Tem a ver com aquele cheiro inconfundível da lenha a arder, com o crepitar discreto das chamas e com a certeza de que ali dentro nos espera um refúgio seguro contra o frio da noite.
Talvez por isso as lareiras nunca tenham saído verdadeiramente de moda nas aldeias. Não servem apenas para aquecer as paredes. Aquecem a alma.
São elas que acompanham as conversas demoradas, os silêncios tranquilos, as noites de chuva e os serões de inverno que parecem não ter fim.
E quando regressamos da rua com o frio agarrado ao corpo, há momentos em que abrir a porta de uma casa aquecida por uma lareira nos parece uma experiência tão próxima do paraíso que quase temos vontade de suspirar e dizer:
"Se o céu existir, não deve ser muito diferente disto."
