quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Habituámo-nos a perder

Não vale a pena continuar a assobiar para o lado. Basta abrir os olhos para perceber que há qualquer coisa de profundamente errada no rumo demográfico do país.
Somos cada vez menos.
Nascem cada vez menos crianças e, em grande parte do território, morre muito mais gente do que a que nasce.
Razões não faltam.
Os jovens formam família cada vez mais tarde. A precariedade laboral, os salários insuficientes, o preço da habitação e a incerteza em relação ao futuro levam muitos a adiar decisões que, há poucas décadas, pareciam naturais.
Quando chega o momento de pensar em filhos, muitas vezes o relógio já corre depressa demais ou as circunstâncias não permitem sonhar mais alto.
Há mais formação académica, é verdade.
Mas continua a faltar, em demasiados casos, uma correspondência entre as qualificações obtidas e as oportunidades disponíveis. Muitos acabam por aceitar o primeiro emprego que aparece, longe da terra onde nasceram e longe das raízes que os viram crescer.
Na minha freguesia nascem dois bebés por ano, às vezes pouco mais. No mesmo período partem cerca de vinte pessoas, quase todas idosas. É uma realidade local, naturalmente. Mas não é um caso isolado.
Por todo o interior repetem-se histórias semelhantes. Aldeias onde já não se ouvem crianças a brincar na rua. Escolas que encerraram por falta de alunos. Casas fechadas durante a maior parte do ano. Terras inteiras que parecem viver apenas da memória dos que ali ficaram e da saudade dos que partiram.
Recuperar décadas de abandono não é tarefa para um governo nem para uma legislatura. Talvez nem para uma geração.
O interior foi perdendo habitantes, serviços, oportunidades e influência. E, quando as pessoas saem para procurar trabalho e uma vida melhor, é natural que criem novos laços e construam o seu futuro onde encontram condições para o fazer.
Não lhes cabe culpa por isso.
Mas o país deveria interrogar-se sobre o preço que pagou por concentrar tanto numa estreita faixa litoral, deixando para trás uma parte enorme do seu território humano, cultural e económico.
O mais preocupante não é apenas o número de habitantes que perdemos. É a sensação de que nos fomos habituando a perder.
Habituámo-nos a perder habitantes, a perder serviços, a perder escolas, a perder maternidades, a perder oportunidades.
Habituámo-nos a ver partir os jovens e a aceitar como inevitável aquilo que nunca o deveria ter sido.
E quando um povo se habitua a assistir ao desaparecimento das suas aldeias, das suas crianças e de parte da sua identidade sem reagir, talvez esteja realmente mais perto do fundo do que gosta de admitir.
Ainda assim, enquanto houver quem permaneça, trabalhe a terra, mantenha viva a memória e acredite que estes lugares merecem futuro, o último capítulo desta história continua por escrever.

Habituámo-nos a perder

N ão vale a pena continuar a assobiar para o lado. Basta abrir os olhos para perceber que há qualquer coisa de profundamente errada no rumo ...