domingo, 4 de outubro de 2026

Um caminho que fiz sozinho

Há momentos na vida em que o coração acredita que a comunidade é uma só voz, uma só vontade, uma só memória. Eu acreditei nisso quando decidi avançar com o projeto de candidatura à Junta de Freguesia da Beirã.
Não por ambição, não por vaidade, não por qualquer promessa de poder.
Acreditei, porque trazia comigo um sonho antigo, partilhado – pensava eu – por todos: o Ramal de Cáceres, a Estação, a vida que dali brotava para tantas famílias da nossa terra.
Acreditei com demasiada inocência que todos aqueles que tinham visto a sua vida mudar com o encerramento do ramal, reconheceriam naquele projeto uma espécie de reparação moral.
Uma forma de devolver a dignidade ao que nos foi tirado sem aviso, sem cuidado, sem respeito pela história da nossa aldeia e região. Mas a verdade chegou dura, como chegam sempre as verdades que não queremos ouvir.
Fiquei praticamente sozinho. Não porque o projeto fosse fraco. Não porque faltasse visão. Não porque faltasse trabalho. Fiquei sozinho porque não era do partido da malta quase toda.
E isso, na política pequena das terras pequenas, pesa mais do que a memória, mais do que a justiça, mais do que a verdade.
Preferiram apoiar a candidatura do partido político que decretou a desativação do Ramal de Cáceres. E eu que já por três vezes havia recusado convites do mesmo partido que dessa vez aceitei, vi-me sem apelo nem agravo a pagar o preço dessa minha inocência.
Doeu.
E doeu sobretudo porque algumas dessas pessoas eram amizades de toda a vida.
Realizámos um Fórum na antiga alfândega. Preparámos tudo com cuidado, com respeito, com esperança. Vieram autoridades dos governos de Espanha e de Portugal.
A sala de pequena dimensão encheu sim, mas sobretudo de malta da amiga, daqueles poucos que estavam do meu lado mesmo quando não era fácil estar, mas também alguns curiosos daqueles do “deixa lá ir ver o que os gajos vão dizer”.
Enquanto isso alguns e algumas que tinham perdido o trabalho com o encerramento das fronteiras pela adesão de Portugal ao Mercado Único Europeu e posteriormente pela desativação do Ramal de Cáceres, ficaram à espreita, a contarem por detrás da cortina um por um, quem para lá ia, ou entrava.
E disseram barbaridades sem nexo, falsidades, coisas que nunca foram faladas nem prometidas apenas para descredibilizarem o nosso projeto, para o ferirem e diminuírem.
Jogo sujo sem o mais leve resquício de honestidade. Não, mesmo na política, não vale, não pode valer tudo.
Nunca o nosso projeto falou em restaurar as ligações diárias da Beirã a Lisboa por comboio. O nosso projeto visava apenas fins turísticos – idênticos ao do Douro – visava só reativar, aos fins de semana, o Ramal de Cáceres desde Valência de Alcântara até Marvão-Beirã e Torre das Vargens, para ligação à Linha do Leste num circuito ferroviário que incluiria Portalegre, Elvas, Badajoz, Mérida e Cáceres.
Estava já garantido o comboio turístico para esse fim, cedido por Espanha.
Obviamente, os municípios de Marvão, Castelo de Vide, Nisa, Crato, Ponte de Sor, Portalegre e Elvas poderiam ser beneficiados com o afluxo de turistas, bastando para tal serem criadas infraestruturas rodoviárias e condições de transporte dos mesmos, das estações ferroviárias para os centros urbanos.
Foi duro.
Tão duro que ainda hoje, quando penso nisso, sinto o peso daquele silêncio que se instala quando percebemos que a lealdade e a amizade não são tão lineares como pensávamos.
Não ganhei a junta mas ganhei outra coisa: a dignidade de liderar a oposição até ao último dia de mandato. E nunca baixei a cabeça, perdi o respeito por quem ganhou ou ofendi fosse quem fosse.
Mas, sobretudo, fui leal à minha aldeia pela qual nunca deixei de lutar, até quando ela não me foi leal a mim.

José Coelho

sábado, 3 de outubro de 2026

Dedicatória

Neste sábado de quietude na Beirã, ao entrar na Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo, lembrei-me, como sempre, dos muitos Beiranenses que guardam esta devoção mesmo vivendo noutros países, noutros continentes, noutros caminhos da vida.

A fé, porém, não conhece distância. Por isso deixo aqui esta fotografia que fiz hoje 3 de Outubro de 2026, na Eucaristia Vespertina do Domingo XXVII do Tempo Comum, como quem acende uma pequena luz para todos os que gostariam de estar presentes.

Que ela vos leve um pouco da paz, da memória e da devoção que aqui se vivem, e vos recorde que a Beirã vos guarda sempre.

José Coelho

Bom fim de semana

A chuva da noite deixou-a lavada, fresca, quase luminosa. Foi o meu pai, António Coelho, quem a plantou, com aquela bondade tranquila que punha em tudo o que tocava.
Chamava-lhe “maçanica” e dizia que as suas azeitonas davam para britar, retalhar ou adoçar no pote de barro, como quem guarda o sabor da casa durante todo o ano.
Hoje, quando a vejo assim, já pintada, pronta e a dizer “colhe-me”, sinto que ele ainda está aqui: no brilho das folhas, no cheiro da terra molhada, na promessa de que a vida continua quando é bem cuidada.
Acarinho esta oliveira como ele a acarinhava. E cada azeitona é uma pequena bênção da sua querida memória.
José Coelho

O meu quintal é um espelho da minha alma

Há lugares que não precisam de grandeza para serem importantes. O meu quintal é um deles. Não tem monumentos, não tem paisagens épicas, não tem a imponência das serras que rodeiam a Beirã. Mas tem algo que nenhuma serra, por mais alta que seja, consegue oferecer: intimidade.
O meu quintal é o lugar onde a minha alma se revela sem pressa.
De manhã, quando saio para ver as plantas, há sempre um instante em que o mundo parece suspenso. O ar ainda fresco, o cheiro da terra húmida de orvalho, o silêncio que só é quebrado pelo canto da passarada, tudo isso cria uma espécie de espaço interior onde o pensamento se organiza.
Os limões novos ainda pequenos, parecem olhar para mim como quem pergunta: “Vais cuidar de nós hoje?” E eu cuido. Com a paciência que a terra exige, com a humildade de quem sabe que nada cresce por imposição.
Regar é um gesto simples, mas tem qualquer coisa de sagrado. A água cai devagar, infiltrando-se na terra como quem devolve vida ao que a pede. E enquanto rego, percebo que aquele movimento repetido, quase sempre igual, é uma forma de meditação.
A mente abranda. O corpo acompanha. O quintal torna-se espelho e eu vejo-me ali, refletido naquilo que cultivo.
Há dias em que as plantas parecem crescer mais. Outros em que parecem estagnar. E eu aprendo com elas que a vida também é assim: feita de avanços e pausas, de dias férteis e silenciosos, de momentos em que tudo floresce e outros em que nada parece acontecer.
A natureza não tem pressa e talvez seja isso que mais me ensina.
A Maria Manuela passa muitas vezes ao meu lado a estender roupa no estendal que eu fiz, mas sem interromper. Ela sabe que aquele espaço é mais do que terra. É refúgio. É lugar de pensamento. É o sítio onde encontro respostas que não encontro em livros, nem em conversas.
À tarde, quando o sol começa a descer, a luz muda. Fica mais dourada, mais oblíqua, mais suave. E o quintal transforma-se numa espécie de sala de estar ao ar livre.
Sentado num dos bancos de alvenaria da varanda, olho para as plantas, para o céu, para o movimento lento do vento, e sinto que ali, naquele pedaço de terra, a vida se torna compreensível.
O meu quintal não é apenas um espaço. É metáfora. É o lugar onde percebo que tudo o que cresce precisa de cuidado, de tempo, de silêncio. E que a alma, tal como as plantas, só floresce quando é regada com atenção.
Às vezes penso que, se alguém quisesse saber quem eu sou, bastava olhar para o meu quintal. Ali está a minha paciência. Ali está a minha memória. Ali está a minha forma de estar no mundo. Ali está o meu ritmo lento, constante, sereno.
O meu quintal é o meu espelho. E eu, que tantas vezes vivi entre urgências e compromissos, ali encontro naquele pedaço de terra, uma verdade que me acompanha: a alma sossega melhor quando tem raízes.

José Coelho

Memórias de um “peixe miúdo”

Crónica de um tempo em que ajudar era perigoso

Nesta fotografia de 1974, o meu olhar não era de juventude – era de resistência. Carregava uma melancolia que não vinha da idade, mas das injustiças que me atingiam em cheio. O país mudava depressa, mas na minha freguesia a mudança ainda era suspeita. 

Entre o medo e a esperança, eu era apenas aquilo que muitos diziam: um peixe miúdo. E foi precisamente por ser pequeno que me tornaram alvo fácil.

Escrevo estas linhas sem procurar palco nem aplausos. Quero apenas deixar testemunho de um tempo em que ajudar alguém podia ser visto como crime. Os trabalhadores rurais da freguesia lutavam por direitos que mal sabiam nomear, e eu, que sabia escrever, emprestava-lhes a mão. Preenchia formulários, traduzia leis, dava voz a quem só tinha silêncio. 

O sindicato era composto por homens analfabetos, de origem humilde e honrada, como o meu pai. A minha ajuda não tinha cor partidária nem ambição. Era apenas humanidade. Mas num tempo em que a solidariedade era vista como luxo, esse gesto simples tornou-se suspeito.

Acompanhava frequentemente o “senhor doutor da alfândega”, homem respeitado e falador, que defendia abertamente os direitos dos trabalhadores. Ser seu amigo era, para mim, uma honra, mas também uma sentença. A hostilidade que não ousavam dirigir a ele caía sobre mim.

Eu era o mais fácil de atingir. O bode expiatório. O peixe miúdo. Sabia lá eu, em 1974, o que era “essa coisa” da política. E passados mais de cinquenta anos, pouco mais sei. O que aprendi foi isto: quando falta coragem aos grandes, sobra aos pequenos o peso da culpa.

Foi nesse tempo que surgiu a nova lei da Segurança Social, substituindo as antigas caixas de previdência. Pela primeira vez, trabalhadores que tinham servido durante décadas podiam requerer reforma com testemunhas e formulários simples. Era uma revolução silenciosa da lei, a servir os mais pobres.

Andei de casa em casa, de porta em porta, a informar os idosos dos seus direitos. Preenchi-lhes os requerimentos, fui testemunha número um, e levei os processos a Portalegre no carro do doutor. Pouco depois, todos receberam o deferimento e o dinheiro que lhes era devido. Alguns milhares de escudos quase todos.

Foi o dia em que vi a justiça chegar à aldeia, pela mão de um peixe miúdo.

O meu maior “crime” aos olhos dos patrões e lambe-botas mal-intencionados, foi ter ajudado a garantir o direito à reforma a quem a merecia. Custou aos patrões alguns milhares de escudos, talvez um carro de luxo a menos. E, aos lacaios lambe-botas, a oportunidade de mostrarem a sua mediocridade enquanto pessoas.

Mas deu aos velhos o que lhes pertencia: uma velhice menos penosa. Hoje, olho para a fotografia de 1974 e reconheço o que ela guarda: a tristeza de quem foi injustiçado e a serenidade de quem sabe que fez o que devia. Porque ajudar o próximo nunca foi crime. Foi – e será sempre – um ato de coragem e de humanidade.

José Coelho

Beirã, 1974 – lembrado em 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Duas Estrelas

Há quem diga que os filhos são o reflexo do que fomos. Eu prefiro pensar que são o eco do que semeámos, e que, quando o eco é generoso, é porque a semente foi boa.
Hoje a “Toca dos Coelhos” viu chegar uma montanha de lenha e com ela, o peso do trabalho que parecia não ter fim. Mas antes que o cansaço se instalasse, apareceu o Manel, o filho mais velho, sem ser chamado, sem promessas, apenas movido por aquele instinto que nasce do amor e da gratidão.
Pegou no carrinho de mão, fez a parte mais dura, e deixou ao pai a tarefa de arrumar, como quem diz:
– Descansa, que eu trato disto.
O Pedro, longe mas sempre presente, já fez o mesmo noutras ocasiões. Entre os dois há uma constelação de gestos que não se apagam: ajuda, respeito, ternura, e essa luz discreta que só os filhos verdadeiramente bons sabem emitir.
Por isso, quando escrevo que tenho dois filhos que são duas estrelas, não é figura de estilo. É constatação. É orgulho. É amor em estado puro.
Obrigado, filhote Manel Coelho.
Gosto muito de ti.
Texto e foto

Logo que o Outono venha...

... arranja lenha! E cá tá ela...
Foto José Coelho