quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Um conto de Natal do meu Autor favorito



“De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.”

Miguel Torga

BOAS FESTAS

A Natureza também se enfeita com as cores do Natal. Rebentos e bagas de madressilva silvestre, na parede do Caminho da Retorta - Beirã, muito próximo do que resta da casa da Avó Amélia.

A (maior)idade ensina

A idade torna-nos mais tranquilos. Não uma tranquilidade que se transforma em passividade resignada, mas sim numa serenidade que lapida e apura a nossa percepção e sensibilidade.
À medida que os anos vão passando vamos aprendendo a respirar fundo antes de responder a provocações deliberadas, a ponderar cada palavra, cada gesto e cada reação. Ou a optar, simples e conscientemente, por não dar qualquer resposta.
A experiência ensina-nos também a olharmos para os outros sem preconceitos, a julgar menos e observar mais, a conceder o tempo necessário para compreender, antes de tirar quaisquer conclusões.
A espuma dos dias concede-nos uma calma que não é, de forma alguma, ausência de emoções ou de entusiasmo pela vida. Muito pelo contrário, torna-nos mais atentos ao que realmente importa, mais conscientes dos nossos sentimentos e das consequências das nossas decisões.
Aprendemos a sentir antes de agir, a escutar o silêncio entre as palavras, a valorizar cada instante antes de o deixar escapar.
A calma da idade é uma sabedoria silenciosa que não se impõe nem faz alarde, mas se revela nas pequenas atitudes do dia a dia: na paciência perante os desafios, na tolerância perante as diferenças, na compreensão dos próprios limites e na aceitação dos altos e baixos da nossa existência.
É uma paz construída lentamente, pedra sobre pedra, ao ritmo das experiências vividas.
No fundo, a (maior)idade mostra-nos que ter calma não é de modo algum sinal de fraqueza, mas de força. A força de quem aprendeu que nem tudo precisa de resposta imediata, que o tempo pode ser um aliado e que há beleza no compasso mais lento da maturidade.
Respirar, olhar, sentir: eis o caminho que a idade desenha e nos convida a uma vida mais plena, mais autêntica e, acima de tudo, mais sábia.
Texto e foto

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Memórias e amizades que permanecem

Guardo com nostalgia as memórias de comandante do posto de Nisa, uma experiência a todos os níveis muitíssimo gratificante, porque marcada por grandes desafios e conquistas, mas sobretudo por laços de amizade e respeito forjados no seio da excelente equipa que compunha o seu efetivo.
Quando iniciei funções deparei-me com uma rotina inalterada e pouco eficaz perante as necessidades da zona: escalas previsíveis, patrulhamentos repetitivos e uma sensação de impunidade que favoreciam a ação dos malfeitores. Até a própria vizinhança conhecia os horários das patrulhas, o que desvirtuava o propósito do policiamento preventivo.
Durante os primeiros meses dediquei-me a conhecer a fundo a imensa área sob a nossa responsabilidade, desde as povoações densamente habitadas aos recantos mais remotos. Só assim pude identificar os pontos mais vulneráveis e calibrar a presença policial conforme as reais necessidades.
O estudo rigoroso das acessibilidades, sobretudo as ligações à Beira Baixa e aos postos limítrofes, revelou-se crucial para antecipar e quando possível interceptar, os movimentos dos grupos de larápios, cuja origem muitas vezes era externa à região.
Os trilhos esquecidos pelo tempo e pela fiscalização serviam de rota aos furtos que se repetiam. Não raras vezes identificávamos os mesmos rastos em diferentes ocorrências, mas, ao chegarem às estradas principais, os autores desapareciam aproveitando a densa mancha florestal e os múltiplos caminhos que a zona oferece, permitindo-lhes chegar rapidamente a Espanha, Portalegre, Elvas, Estremoz, Abrantes ou Ponte de Sor, entre outros destinos.
Quando considerei ter mapeado os pontos nevrálgicos, avancei para uma profunda reformulação dos patrulhamentos. Otimizei os meios disponíveis alternando entre patrulhas a cavalo, apeadas, motorizadas e auto, garantindo uma cobertura flexível e imprevisível. A minha participação era constante integrando o policiamento diurno e noturno, lado a lado com os colegas, após as tarefas administrativas.
Partilhei todo o conhecimento adquirido ao longo da carreira, mas privilegiei, acima de tudo, um ambiente de confiança e mútua responsabilidade. Incentivei a autonomia e a proatividade, sempre com o rigor legal como referência. Repetia frequentemente: “Na dúvida, não se faz. Mas, perante um ilícito evidente, ninguém deve hesitar em agir nem temer pedir apoio, se necessário.”
A valorização individual e o estímulo à autoestima foram pilares do meu método de liderança, assente no reconhecimento e no respeito da condição humana dos militares.
Nunca exigi deles aquilo que não estivesse disposto a fazer também; nunca mandei ninguém para o frio ou para o calor sem estar com eles presente no terreno. Liderar pelo exemplo foi sempre a minha regra de ouro, mesmo quando isso implicava sacrifícios pessoais, como as ausências frequentes à mesa familiar, recordadas com ternura e alguma nostalgia pela minha esposa.
O esforço coletivo rapidamente se refletiu numa redução significativa da criminalidade, na recuperação de bens e no restabelecimento do sentimento de segurança junto das populações. A imprevisibilidade dos patrulhamentos tornou-se uma marca da nossa ação: podíamos aparecer sem aviso em qualquer ponto da vasta área, a qualquer hora do dia ou da noite.
A flexibilidade tática permitiu-nos adaptar o efetivo e os meios às circunstâncias, tornando o serviço mais eficaz e o trabalho mais motivador. O espírito de equipa consolidou-se, criando laços que perduraram bem para lá do tempo de serviço conjunto.
Se há algo que guardo com maior orgulho desses oito anos de comando é a amizade sincera e o respeito que se mantêm, décadas depois, com muitos daqueles mais de trinta profissionais que tive o privilégio de liderar. São relações que o tempo não apaga, feitas na confiança, na entreajuda e reconhecimento mútuos.
Hoje ao recordar esses momentos sinto que todo esse esforço foi bem empregue. Agradeço a cada um dos homens que partilharam esse percurso comigo, certos de que o laço construído permanece vivo, alimentado pela amizade, pela gratidão e pela memória de um tempo em que, juntos, fizemos a diferença.
Foto Nisa 1986

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O sentido da nossa existência

A nossa vida é um percurso nem sempre fácil, marcado pelas escolhas e atitudes que irão definir quem somos. Levá-la a sério implica encarar os desafios e responsabilidades com maturidade, sem nunca perder de vista a empatia com os outros.
Respeitar toda a gente independentemente da idade, estatuto social ou opinião, demonstra uma grandeza de carácter rara, mas indispensável, nos dias de hoje.
Ser prestável e gentil com os mais velhos é sinal de sabedoria mas essa postura deve estender-se a todos, pois cada pessoa, seja qual for a sua idade, carrega consigo uma história que merece toda a nossa consideração.
Praticar o bem sem olhar a quem e sem esperar recompensa é uma das maiores virtudes humanas e quem o pratica pelo simples empenho de contribuir para um mundo melhor, revela um enormíssimo desprendimento e altruísmo.
Dedicar grande parte do seu tempo na ajuda aos outros é um ato de generosidade que embora nobre, nem sempre será reconhecido ou retribuído.
Pelo contrário, na sua crueza, a vida ensina-nos que as decepções são inevitáveis e por vezes vêm de onde menos esperamos – justamente daqueles a quem mais estendemos a mão.
Apesar dessas injustiças e do sofrimento que possam causar, é importante não perdermos nunca a nossa essência nem deixar de acreditar nos valores que nos movem.
As experiências dolorosas acabam por nos fortalecer, ensinar-nos a lidar com a frustração e a desenvolver uma sã resiliência.
Como se costuma dizer…
É a vida...
Mas apesar de todas as adversidades, valerá sempre a pena manter a dignidade, a bondade e o compromisso com o bem comum.
Porque no fim de contas o que semeamos no coração dos outros, é o que verdadeiramente dá sentido à nossa existência.

domingo, 14 de dezembro de 2025

O verdadeiro espírito do Natal

Defender a Família vai muito além de proteger apenas a nossa. É um gesto de humanidade reconhecer, defender e preservar a união de Todas as Famílias. Em tempos festivos como o Natal somos convidados a olhar para além das nossas quatro paredes e a cultivar uma tradição que tem, na sua essência, o acolhimento.
O Natal celebrado em tantas culturas e casas é tradicionalmente o tempo de abrir as portas a quem vem de longe, a quem está sozinho, a quem precisa de calor e companhia.
Relembrar esta tradição é perceber que um presépio só faz sentido quando representa de facto um espaço de hospitalidade. Sem acolhimento, esse mesmo presépio é apenas decoração sem sentido algum. E sem humanidade, a fé transforma-se em folclore, esvaziada do seu verdadeiro significado.
No mundo de hoje, onde tantas vezes fechamos o coração por medo, hábito ou indiferença, torna-se urgente resgatar o verdadeiro espírito natalício. As tradições não ganham vida apenas com enfeites, luzes ou rituais repetidos sem reflexão.
Elas só se tornam autênticas quando nos aproximam do outro, se nos incentivam a estender a mão, a partilhar o pão e a esperança.
A história da Sagrada Família é um exemplo profundo desta mensagem: foi o acolhimento de estranhos na sua viagem que tornou possível o milagre do Natal. Essa hospitalidade é, ainda hoje, um apelo vivo à compaixão, à empatia e ao cuidado mútuo.
Celebrar o Natal sem compaixão sem abrir a porta a quem chega ou a quem precisa, é esvaziá-lo do seu significado mais profundo. Por isso que neste Natal nos preocupemos menos com o que está na mesa e mais com quem convidamos a nela se poder sentar conosco, para que a tradição se renove através do acolhimento, do respeito e da construção de uma humanidade mais unida e solidária.
Porque se não acolhemos e não cuidamos do próximo, que sentido faz esta celebração?
Que o Natal 2025 consiga ser um recomeço em cada gesto de partilha e que cada porta aberta nos mostre o verdadeiro milagre que comporta a capacidade para amar e incluir os outros na nossa vida.
Texto e foto do estandarte do Menino Jesus em nossa casa.

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...