quinta-feira, 24 de maio de 2018

Esclarecendo porquês...


Na impossibilidade de satisfazer os pedidos que me têm chegado para aquisição do livro, estou aqui a (re)publicar alguns excertos dele. Grato pelo interesse manifestado, fica esta hipótese para quem possa estar interessado em dar uma olhadela...

Excertos...

A cumprir a minha obrigação

(...)

Quando nasci o meu pai contava já 42 anos. Casou tarde, aos 36, pese embora a minha mãe tivesse apenas 20. Tão mais jovem que ele, deduzo que provavelmente ter-se-á deixado encantar por aquele modo meigo e afável que o caracterizavam e com o qual conquistava o respeito e a amizade de quase toda a gente. Cresci por isso a ver surgirem no seu rosto as primeiras rugas e no seu farto cabelo os primeiros fios prateados.

13 anos mais tarde fui integrar a sua equipa de trabalho na pedreira da Lajem do Sapato da qual ele era subempreiteiro e também ali todos os seus camaradas eram já cinquentões como ele. Foi com eles que aprendi o ofício de cabouqueiro e foi também seguramente neles que colhi muitos dos ensinamentos que me moldaram para a vida adulta.

Influenciado por essa sã vivência com gente madura e de muito bom senso, habituei-me a estimar e a respeitar os mais velhos. Aqueles a quem, por ser mais fino, e, argumenta-se ainda, por ser menos agressivo, apelidam hoje de idosos. Mas eu continuo a chamar-lhes velhos como sempre chamei porque entendo que a velhice não é e nunca foi um castigo. Pelo contrário, entendo que é um privilégio negado a muitos, uma bênção inestimável para quem consegue alcançá-la.

As rugas de qualquer anciã ou ancião, os seus cabelos prateados e a sabedoria adquirida no decorrer das suas vidas, merecem de mim e deveriam merecer de todos nós, o maior respeito e consideração. Admiro sinceramente a sua dignidade, a sua paciência, o seu conformismo, e, sobretudo, a generosidade com que aceitam tantas vezes ser esquecidos, a nobreza e bondade como desculpam quase sempre os familiares que passam meses sem os visitar nos lares onde por conveniência própria os internaram para ali viverem o resto das suas vidas.

É comum ouvir alguns dos seus gentis argumentos:

- Coitados! Não podem cá vir porque têm lá a vida deles...

Não só desculpam  como ainda lhes parece que "coitados" são os que se esquecem que eles ainda existem, que continuam vivos e a amá-los apesar das suas injustificáveis ausências! Generosidade pura, acho eu. E acho também que o abandono de uma mãe, de um pai, de um irmão, de uns avós ou de outros parentes próximos, é… Uma vergonha! Um desmazelo! Uma ingratidão! Uma falta de amor, de solidariedade e de respeito por quem muitos sacrifícios fez quase sempre para lhes dar o melhor que tinha e podia.

(...)

Do livro Histórias do Cota

O incentivo de familiares e amigos...




Um grande obrigado a toda a minha família e amigos, particularmente à minha nora Ana Batista pela impecável organização de todo o evento, o qual, pelo seu profissionalismo e inexcedível empenho desde o primeiro ao último detalhe, superou todas as expectativas.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Excertos...


Eucaristia na igreja matriz de Nisa 
Imagem que encontrei na net

(…)

Sem saber para onde me virar e como muitas vezes fiz ao longo da minha vida sempre que disso tive necessidade, procurei a ajuda do divino. Num dia e hora completamente aleatórios e sem prévia programação, dirigi-me à igreja matriz para me recolher em silêncio na retemperadora paz do seu interior em busca de alguma transcendente inspiração que me aquietasse o espírito e indicasse um caminho. Entrei quando estava a começar uma missa e a celebração envolvia atividades com crianças da catequese.

Deixei-me ficar ao fundo da igreja discretamente rodeado pela assembleia anónima com a deliberada intenção de passar despercebido mas logo a minha comadre Natária, (madrinha de crisma do meu filho Manel) uma das mais competentes e ativas colaboradoras daquela comunidade há muitos anos, reparou em mim e foi ter comigo para me dizer:

- Ainda bem que aqui estás, compadre. Queres ir fazer uma das leituras da missa?

- Sim, posso fazer, respondi sem pensar duas vezes, porque também na minha paróquia-mãe sempre colaborei nessas atividades quando me foi solicitado.

E assim sem nada ter sido preconcebido estava já a ser parte interveniente naquela celebração eucarística que nem sabia estar prestes a começar quando me dirigi à igreja. Senti logo naquele convite um sinal de acolhimento do Senhor. É muito difícil traduzir por palavras esses sentimentos íntimos da nossa alma, mas dir-vos-ei que à luz da minha fé senti assim como que um “fizeste bem vir procurar-Me”.

Presunção e água benta cada um toma a que quer diz a sabedoria popular, mas sem que me ocorra melhor forma de o explicar, senti efetivamente que aquele convite para ir fazer uma das leituras mais não era que um invisível sinal de boas vindas. A igreja estava repleta de gente, porque fui eu o escolhido?

A celebração começou.

Fui fazer a leitura que me tinha sido indicada e voltei discretamente de novo para o meu lugar ao fundo do templo. A dado momento durante o ofertório realizado pelas crianças, enquanto uma delas estendia o cestinho para recolher as ofertas, outra criança oferecia a cada pessoa uma pequena tira de papel que trazia escrita uma frase de conteúdo litúrgico. E lá veio uma delas estender-me o cesto onde coloquei a minha oferta enquanto a outra me entregava “o recado” numa tirinha de papel que aceitei e guardei (até hoje) mas não sem primeiro ler a curta mensagem nele contida e que dizia assim:


Fiquei a olhar com alguma surpresa para o minúsculo papel que me pareceu ser outro sinal, só que desta vez bastante mais óbvio e visível. Involuntariamente estremeci, sentindo que me invadia um sentimento da mais profunda gratidão e apenas consegui murmurar um “bendito sejas Senhor”.

Quando saí da igreja pouco depois o meu coração navegava num mar de serenidade porque ali fora abençoado pela inabalável certeza de que as minhas súplicas tinham sido atendidas. E aquele papelito que levava no bolso era um prenúncio de esperança que ia muito além do que alguma vez imaginara encontrar.

(…)

Do livro Histórias do Cota

Apresentação pública...





Infinitamente grato sou eu pela generosidade das suas palavras,
Exmª Senhora  Drª Dulce Mota.
                                                                                                  
                                                                                                   José Coelho

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Excertos...

Foto antiga da Beirã que encontrei na net

(...) 

Cheguei a casa em vésperas dos santos populares e das fogueiras de rosmaninho que cada família fazia à sua porta num alegre convívio de sardinhadas e caldo verde, à mistura com o inevitável pezinho de dança ao som de música de gira-discos ou gravador de cassetes. Tudo o que eu necessitava para reencontrar o equilíbrio e a paz de espírito. A Beirã desse tempo tinha um grande grupo de jovens da minha idade e não só. Era uma comunidade muito viva, atuante e participativa.

Aos serões a “malta” de ambos os sexos juntavam-se em grupos no Clube ou na Sociedade Recreativa, no Largo da Fonte ou à porta da Loja Grande. Havia quem tivesse viola, havia até quem cantasse muito bem, havia enfim, um estilo de vida completamente salutar onde a amizade, a camaradagem e o espírito de grupo imperavam, fazendo de todos nós uma juventude muito unida  e feliz.

Ninguém ou quase ninguém tinha ainda televisão em casa. Qualquer programa de maior interesse era televisionado nas salas públicas já referidas que tinham esse equipamento para utilização coletiva, o que, de algum modo, também contribuía muito para a juventude reunir e conviver diariamente.

Os ecos da Revolução de Abril iam cá chegando mais ou menos ruidosos e com eles começaram infelizmente as tendências agressivas do partidarismo que subtilmente dividiu em claques a malta simpatizante de cada uma das diferentes opções políticas. E alguns amigos de uma vida inteira começaram a olhar-se como rivais.

Iniciou-se dessa forma a nova era conquistada na recente manhã de abril e que, em meu modesto entender, não trouxe, nem pouco mais ou menos, o que se perspetivava em termos de bem-estar coletivo e mesmo em termos de futuro. Muito e muito pelo contrário. Sem que ninguém o previsse ou pudesse imaginar, a Beirã começou a ruir num efeito dominó imparável e demolidor. A menina dos olhos do concelho de Marvão iniciou ali o inexorável e irreversível processo da sua lenta agonia.

Primeiro foram os agentes da Pide que fugiram ou foram presos e as suas famílias tiveram que regressar às origens, deixando para trás as primeiras casas desabitadas. Vizinhos e amigos, independentemente do que os ligava ao anterior regime ou ao que faziam no exercício da sua profissão, eram famílias inteiras que davam vida à aldeia e ajudavam a sustentar a economia local.

Depois foi o processo de integração de Portugal na União Europeia. A alfândega fechou e a circulação ferroviária reduziu tanto que mais de dois terços dos funcionários da CP foram colocados noutras estações longe da Beirã. Os escritórios dos despachantes oficiais também deixaram de ser necessários e a sombra do desemprego começou a pairar sem deixar lugar a dúvidas sobre muitas famílias que ali tinham o seu ganha-pão há décadas.  (...) foi extinta a Guarda-Fiscal. 

Os que não eram de cá foram pura e simplesmente embora também para as suas terras em busca das suas raízes para ali reconstruírem ou começarem de novo as suas vidas. E para trás deixaram mais casas desabitadas um pouco por todas as ruas da Beirã.

(...)

                                                                   Do livro Histórias do Cota

Excertos...

O comboio TER numa foto de Paulo Ferreira


(...) 

O elegante comboio azul TER chegou por fim à estação de Castelo de Vide, a penúltima antes da Beirã. Faltava um quarto para as onze. A paisagem tão querida e tão familiar começou a desenrolar-se diante dos meus extasiados olhos. Que delícia! Que saudades eu tivera das minhas pedras, dos meus sobreiros e giestas, daquele aroma cálido e perfumado dos campos secos do início do verão, longe do húmido, pegajoso e interminável verde, da floresta tropical.

Parecia ainda quase um sonho mas ali estava Castelo de Vide de um lado da linha e do outro os canchais pontilhados de carvalhos, sobreiros, oliveiras, hortas e casas brancas isoladas, aqui e além.
Era mesmo verdade. Ia no comboio que me levava finalmente para casa, para junto de todos os entes queridos e sem aquele habitual aperto no peito causado pela expectativa de ouvir tiros ou explosões a qualquer instante. Tudo isso ficara definitivamente para trás.

Passámos a Ponte das Águas e mais além avistei o Monte da Broca, com a grande e cuidada horta do meu pai.

Ufff…

Ainda hoje me arrepio com essa recordação!

Logo a seguir o campo da bola e a passagem de nível do Penedo da Rainha. E ele lá vinha, quase a correr pela estrada do Pereiro antes da passagem de nível. O meu pai! E a porra da janela do comboio que não abria! O comboio era climatizado por isso as janelas eram de vidros fixos! Fiz-lhe adeus. Ele viu-me, conheceu-me e fez-me adeus também. Depois de tanto tempo. Depois de ter temido tantas vezes não voltar a abraçá-lo.

Finalmente a estação da Beirã e uma dúzia de braços abertos correram para mim, gritos, risos, lágrimas, soluços, beijos e longos, apertados abraços. Manas, tias, primos, vizinhos, amigos. Tanta gente à minha espera…

Pouco depois, especado à porta da nossa casa e ofegante ainda da correria desde a horta, aguardava-me, lavado em lágrimas, o meu velho amigo e querido Pai.

- Até que enfim estás em casa, filho! Graças a Deus…

E ali ficámos fortemente abraçados um ao outro a soluçar como duas madalenas arrependidas, como se ainda receássemos que fosse mentira. 

(…)


Do livro Histórias do Cota

Da Beirã, com amizade

O fim de semana chega sempre com um passo diferente. Não corre. Não buzina. Não traz agendas apertadas nem relógios impacientes. Chega deva...