segunda-feira, 13 de abril de 2026

O apelo da terra


Percorro estas paisagens desde que me lembro de existir. Saltei paredes, subi e desci canchos, perdi-me de propósito nos matagais, nas silvas e nos giestais, sempre acompanhado pelo canto da passarada e pelo murmúrio do vento. Este é o meu mundo íntimo, o único capaz de apaziguar qualquer desassossego. Tudo o que aqui me envolve é harmonia: paz antiga, natureza em estado puro, obra de arte viva que oferece ao mesmo tempo, música ao vivo, cores irrepetíveis e perfumes que parecem saídos da própria criação.
Na Primavera o amarelo intenso das maias das giestas negrais desafia a alvura das giestas alveirinhas e das rendilhadas flores dos pilriteiros - por aqui chamados carapeteiros. O ar enche-se do perfume inebriante que delas se desprende, misturado com o aroma do rosmaninho e de uma infinidade de lírios e flores silvestres que pintam o campo como um quadro sem moldura.
Não conheço templo mais belo, nem lugar onde me sinta tão próximo do Criador e tão parte do Universo.
Foi por estes caminhos que os meus saudosos avós viveram e foram felizes; por aqui os meus pais se encontraram e uniram para toda a vida. Nestes campos, a minha avó, a minha mãe e tias mondaram trigos, sacharam milhos, cantaram alegrias e choraram tristezas, deixando na terra o suor do cansaço e as lágrimas que a dor lhes arrancava.
Também aqui o meu avô, o meu pai, tios e primos guardaram rebanhos, lavraram a terra com charruas e arados puxados por vacas e muares, semearam e colheram pão, frutos e legumes.
Estas paisagens são-me tão naturais como a própria pele. Por isso sou rústico como elas. Sempre que a vida me apertou, refugiei-me na sua solidão benfazeja à procura de paz, de equilíbrio ou das respostas que só o silêncio da terra sabe dar.
Passei horas a caminhar sem destino por cabeços e covas, tantas vezes sem dar conta do tempo. Outras vezes sentava-me no alto dum cancho a ouvir o pasto estalar com a correria de algum animal bravio que sempre abundaram por estas paragens.
Lá longe, na guerra, quando senti que podia não regressar depois de tombarem camaradas, prometi a mim mesmo que se voltasse, nunca mais daqui sairia. E quase cumpri a promessa. Assim que regressei - por isso agradecerei até ao fim dos meus dias - voltei inúmeras vezes a estes lugares para matar saudades e beber de novo a sua paz. Só me ausentei para cumprir a missão de chefe de família, porque aqui não era possível.
Mas voltava sempre.
E assim que pude, regressei de vez. Continuo por cá, apesar de tudo estar tão diferente. A vida levou entes queridos, bons vizinhos, e até o quotidiano de outrora se extinguiu. Restam-me as memórias. E aquele silêncio que antes só se “ouvia” nos sítios ermos agora habita pelas casas e ruas de todos os povoados, fazendo-nos companhia dia e noite.
Ainda assim, e enquanto me couber decidir, é aqui que quero terminar os meus dias: a deslumbrar-me com cada pôr do sol, a enternecer-me com o trru-trru das rolas, a encantar-me com a ousadia dos melros, pintassilgos e outros alados vizinhos que insistem em encher de ninhos as árvores do nosso quintal, confiantes de que ninguém os irá incomodar.

José Coelho
Foto Maria Coelho