terça-feira, 14 de abril de 2026

Cada dia que nasce é também um dia que nos deixa


Acordei cedo, como sempre. A casa que restaurei e ampliei – com amplas janelas traseiras voltadas ao nascente – foi por mim desenhada ao pormenor. Por isso logo que a aurora começa a clarear por terras de Espanha atrás da Murta, a suave luz filtrada pelas persianas e acompanhada pelo cantar dos galos da vizinhança, anuncia o dia.
Não me levanto logo. Já não consigo dormir mais, mas deixo-me ficar quieto para não acordar a “patroa”, enquanto me vou apercebendo do despertar da natureza inteira que rodeia estes meus domínios.
Os pardais, com o seu debicar metálico no algeroz, procuram insetos para alimentar a prole. Já ali construíram um monumental ninho, vingando-se talvez por eu não ter permitido que o fizessem nos tubos do ar condicionado no verão anterior. Pelas redondezas vive também um numeroso bando de rolas-turcas, há muitos anos habitando os sobreiros da Tapada da Rabela, anexa ao nosso quintal.
No ano passado ousaram até nidificar na laranjeira sem receio de o ninho ficar ao alcance das nossas mãos. Pousam nos telhados e nas chaminés, cantam de manhã à noite enquanto vão vigiando os besouros, as espigas da horta e, claro, os baldes de água fresca que diariamente lhes renovo.
Longe vai o tempo em que me levantava às seis da manhã para cortar a barba, tomar um duche e seguir para as minhas obrigações profissionais em Portalegre. Houve dias em que o nascer do sol era precisamente a hora em que terminava a minha ronda noturna na proteção de pessoas e bens. Aí, em vez de acordar, era hora de me ir deitar.
Hoje, vivo outro tempo. Um tempo de descansar, de desfrutar da paz e da tranquilidade deste lugar que para mim é o melhor do mundo: a Toca dos Coelhos. Aqui nasci, aqui vivi os momentos mais doces da minha vida, aqui me despedi dos entes mais queridos. E aqui consigo esta bênção de envelhecer. Não tenho uma vida perfeita – ninguém tem – mas é com toda a certeza a vida mais serena que poderia desejar.
Os problemas de saúde são semelhantes aos de tantos outros. Minimizo-os quanto posso e aceito-os com ânimo e resignação. Queixar-me nada resolve. Vivo um dia de cada vez agradecendo o que tenho e o que ainda posso fazer. Mesmo com limitações, a vida não deixa de ser um dom que me foi concedido e tenho o dever de honrar, até nos dias difíceis. Nem sempre é fácil, mas nunca desisto de erguer a cabeça para enfrentar o que venha perturbar-me.
Os últimos anos mostraram-nos, com brutal clareza, a nossa insignificância perante a força da natureza. Ela sabe defender-se das agressões que lhe fazemos e lembrou-nos, sem cerimónias, a nossa humana pequenez.
Sou dos seus mais fiéis admiradores. Prova disso são os milhares de fotografias que guardo: fauna, flora, paisagens rústicas, céus azuis ou nublados, e, sobretudo as cores do pôr do sol que considero a obra-prima mais perfeita que nos é oferecida diariamente pelo Criador.
Contudo, também me fascinam as cores da aurora, desde surge a primeira auréola rosada, até o astro-rei se erguer no horizonte. Curiosamente o nascer do dia desperta toda a vida com barulho e movimento, enquanto o seu ocaso a silencia por completo.
Poucas coisas admiro mais.
Em cada acordar, agradeço mais esse dia de vida. E antes de adormecer, volto a agradecer o dia vivido. Não por beatice, mas por convicção. Ser grato, atento e disponível, faz parte do meu ADN. Assim vivo serenamente, porque é assim que sou feliz.
E entendo isto: cada dia que amanhece e se soma à nossa vida é, simultaneamente, um dia a menos do total que temos para viver. Essa é, talvez, a equação mais precisa que existe. Lembrem-se dela. E procurem ser felizes, mesmo quando a vida não vos der tudo o que julgam necessário para o serem.
Texto e foto