sábado, 25 de abril de 2026

Cinquenta e dois anos de democracia

O tempo não volta. Digo-o como quem fala de um velho inimigo que conhece demasiado bem. O tempo avança, impiedoso e corre hoje como um cavalo desgovernado, quando outrora caminhava ao meu lado, manso, quase preguiçoso. Houve um tempo – o meu tempo de moço – em que os dias eram vastos como planícies e as semanas tinham o dobro dos passos. Os meses, esses, pareciam eras inteiras. Nunca mais era sábado para o baile, nunca mais era domingo para namorar. O tempo demorava-se connosco, como se tivesse pena de nos deixar crescer.
Do Natal à Páscoa estendia-se um deserto de meses frios. Os Invernos eram muralhas de seis meses, de chuva e vento que mordiam. Os Verões, breves como um suspiro, cabiam em três meses de luz. E entre eles havia Abril, Maio e Setembro, meses de fronteira, onde o mundo parecia suspenso entre duas estações. Nessa altura, todos sabiam ler o céu. Era o nosso calendário, o nosso relógio, a nossa bússola.
Eu, pequeno ainda, seguia a estrela boieira como quem segue um destino. Muitas vezes a aurora apanhava-me pela mão – a mim e à minha mãe – no caminho para as tapadas. Ela sachava milho e feijão de sol a sol e eu aprendia a ler o mundo no silêncio da madrugada. O céu era um livro aberto: o vermelho do poente anunciava calor ou frio, conforme a estação; a lua, com os seus quartos, ditava sementeiras, colheitas, sortes e azares. E quando a lua cheia surgia no inverno, os lobisomens uivavam com o vento, e ninguém duvidava disso.
O tempo… ah, o tempo. Às vezes olho à minha volta e pergunto-me se este é o mesmo mundo onde nasci.
Havia vida em cada casa, em cada sócha, em cada curva do caminho. Da Beirã ao Cabeço de Seixo, da Atalaia às Amendoeiras, havia vozes, passos, gado, hortas, searas, pomares. Havia gente. Havia futuro. Bastaram cinquenta anos para que tudo fosse varrido como por um vento ruim que não trouxe chuva, nem frescura, nem esperança.
Trouxe apenas silêncio.
Chamam-lhe progresso. Nome bonito, nome cheio, nome enganador.
Mas que progresso é este que seca terras inteiras, que arranca as pessoas às raízes, que transforma aldeias vivas em lugares onde só o eco responde? Que progresso é este que fecha lojas, oficinas, cafés, que mata linhas de comboio, que decide destinos em gabinetes onde nunca entrou o cheiro da terra molhada? Que progresso é este que nos cobra tudo e devolve tão pouco?
E nós, teimosos e pacientes, refilamos… mas continuamos a entregar-lhes o poder, de quatro em quatro anos, como quem entrega a chave da própria casa a estranhos.
Cinquenta e dois anos de democracia e metade do país está vazio. O meu distrito de Portalegre – onde nasci, cresci, trabalhei e vivo – tornou-se um reino de silêncio, envelhecido, esquecido, abandonado.
O tempo não volta. Mas repete-se.
No tempo da outra senhora falava-se dos três efes: Fátima, Futebol e Festas. No tempo da senhora atual, pouco mudou. As multidões continuam a caminhar para a Cova da Iria, o futebol continua a incendiar paixões, e as festas – romarias, feiras, campanhas – continuam a ser o grande palco onde o povo esquece, por instantes, o que perdeu.
Eu também vou a Fátima. Ao futebol já menos, às festas quase nada. Mas há algo que nunca deixei de praticar: os valores que me ensinaram os meus pais e avós, e que ensino agora às minhas netas. O respeito. A dignidade. A honestidade. A honradez. E, acima de tudo, a integridade de carácter – essa armadura invisível que protege quem a usa.
A minha gente dizia-o melhor do que qualquer livro:
Pode uma pessoa não ter mais nada na vida, mas há uma coisa que nunca pode perder: – a vergonha na (puta da) cara.
Hoje, essa vergonha falta a muitos – e dói mais quando falta a quem devia dar o exemplo. Por isso, mesmo com todas as dificuldades de outrora, revejo-me mais no tempo em que fui moço do que neste, cheio de facilidades, mas vazio de alma.
Disse.