domingo, 26 de abril de 2026

A terra onde o silêncio aprendeu a falar


Cheguei a casa vindo da guerra a tempo dos Santos Populares. As fogueiras de rosmaninho acendiam-se à porta de cada família como pequenos altares de luz, e o ar enchia-se daquele cheiro perfumado e quente que só o verão alentejano sabe acender. Havia sardinhas, caldo verde, música de gira discos, cassetes gastas de tanto rodarem. E havia, sobretudo, a sensação de que o mundo, por fim, voltava a caber-me no peito.
A Beirã desse tempo era um corpo vivo. Pulsava.
Havia jovens por todo o lado – da minha idade e de outras – e a aldeia parecia sempre prestes a começar uma festa. Aos serões, juntávamo-nos no Clube, na Sociedade Recreativa, no Largo da Fonte, à porta da Loja Grande. Havia violas, havia vozes, havia quem cantasse bem e gargalhadas que se ouviam ao longe. Era um tempo em que a amizade não precisava de ser explicada: vivia-se.
Quase ninguém tinha televisão em casa. Os programas importantes eram vistos nas salas públicas, onde o brilho do ecrã iluminava rostos atentos e aproximava ainda mais quem já vivia perto. A comunidade era isso: proximidade, partilha, pertença.
Abril veio com esperança, é certo, mas também com ruído. E, devagar, quase sem darmos por isso, o partidarismo começou a dividir o que antes era uno. Amigos de infância passaram a olhar-se de lado, como se a política tivesse o poder de reescrever memórias. Foi o primeiro sinal de que a terra começava a mudar – e não necessariamente para melhor.
Foi como um dominó empurrado por mãos distantes.
Primeiro, as famílias ligadas à PIDE partiram – umas fugidas, outras levadas – deixando para trás as primeiras casas vazias. Depois, com a entrada de Portugal na União Europeia fechou a alfândega, a circulação ferroviária rareou e dois terços dos funcionários da CP foram enviados para longe. Os despachantes oficiais perderam o ofício. A Guarda Fiscal foi extinta. E cada saída deixava mais uma porta fechada, mais uma janela às escuras, mais um silêncio.
Quem não era de cá regressou às suas origens. Quem era, ficou a ver a aldeia esvaziar-se rua a rua.
Ainda assim, alguns – como eu – resistimos. Ficámos. Lutámos.
Mas a machadada final caiu em agosto de 2012, quando, nos gabinetes lisboetas onde raramente se pronuncia o nome da Beirã, se decidiu desativar o Ramal de Cáceres. A partir desse dia, a solidão deixou de ser circunstância: tornou-se destino.
Assim chegámos a abril de 2026, neste país que se esqueceu de si próprio
Hoje, quando caminho pelas ruas onde um dia corri descalço, vejo mais portas fechadas do que vozes. O distrito de Portalegre tem 11 habitantes por quilómetro quadrado – um número que não é estatística, é epitáfio. É o retrato de um país que se habituou a governar apenas onde há votos, luzes, câmaras e pressa.
A Beirã (ainda) não morreu. Mas vive ferida.
As casas vazias são como páginas arrancadas de um livro que ainda não acabou. As ruas guardam passos que já não se ouvem. E, no entanto, há uma chama que insiste em não se apagar: a dos que ficamos.
Os que cuidam. Os que persistem. Os que se recusam a deixar que a terra seja apenas memória.
A aldeia da minha juventude já não existe. Mas existe esta – a que sobreviveu ao abandono, à distância, à indiferença. E enquanto houver alguém que conte a história, a terra não desaparecerá.
Por isso continuo aqui. A ver, a lembrar, a escrever. Porque alguém tem de dizer, com todas as letras, que o interior não morreu: foi deixado para morrer.
Porém, enquanto a minha força anímica o permitir, nunca aceitarei esse destino para a minha Beirã, nem desistirei de atestar, dia após dia, que continua aqui. Frágil, mas viva.
Texto e foto