terça-feira, 7 de abril de 2026

Nem sempre as mudanças são para melhor

Duas miniaturas da minha coleção de uniformes

Até finais da década de 90 do século XX, a presença da Guarda nas aldeias era completamente diferente da que hoje conhecemos. As patrulhas faziam-se a pé, num exercício diário de proximidade, conhecimento do território e contacto humano.

Os guardas saíam do posto em patrulhas de dois elementos, caminhando quilómetros por estradas e caminhos rurais – um de cada lado da estrada ou caminho – atentos a tudo o que acontecia. Citavam pessoas para os tribunais, fiscalizavam o trânsito de carroças, bicicletas e motorizadas e eram frequentemente chamados a intervir em pequenos furtos, desavenças ou outras ocorrências próprias do quotidiano rural.

A maior parte dos efetivos permaneciam décadas no mesmo quartel. Conheciam as famílias, sabiam os nomes, as histórias e até os feitios de cada um. Essa continuidade criava uma relação de confiança e respeito mútuo entre a autoridade e a população.

Não era raro que a fiscalização se transformasse numa conversa, num conselho ou numa simples troca de impressões sobre a vida da aldeia.

Fazia também parte do policiamento visitar os estabelecimentos locais tais como mercearias, tabernas e outras coletividades, porque muitas vezes uma bebida partilhada e dois dedos de conversa resultavam na recolha de informações – a vox populi muito importante – acerca dos mais diversos problemas locais, ou apenas para um momento de pausa antes de retomarem o caminho.

Ao final do dia as patrulhas que saíam depois do almoço, ou à hora de almoço as que saíam de manhã cedo, regressavam novamente a pé ao posto, levando consigo notícias, recados e, de modo geral, o pulsar da vida nas aldeias que dessa forma policiavam.

Esse modo tão natural de presença constante hoje desaparecida, era mais do que um mero policiamento: era presença, proximidade e humanidade. A autoridade exercida com passos firmes, olhos atentos e diálogo constante que deixou marca na memória coletiva das localidades.

Recordar esses tempos é recordar uma forma diferente de praticar a segurança, onde a lei caminhava lado a lado com as pessoas num policiamento de proximidade, entreajuda e cooperação, numa privilegiada atenção à segurança e bem-estar das populações rurais, principalmente dos idosos que viviam sozinhos ou em locais isolados.

Em meu entender, nem sempre aquilo que se modifica, fica melhor…

José Coelho